Para além do bem e do mal – Caminhos Vida Integral
Artigos

Para além do bem e do mal

Nossos padrões reativos cocriam a “realidade existencial”

Luciano Alves Meira

Inconscientemente, interpretamos as formas captadas pelos nossos sentidos como sendo “a realidade”. Por óbvio, uma parte significativa dessa “realidade” agride nosso sistema de crenças e valores, e, principalmente, as nossas expectativas, e é por isso que estamos sempre declarando algum tipo de guerra contra o “mal”.

Poucos captam a seguinte sutileza psíquica:
Nosso sistema mental-emocional confere “realidade” a tudo aquilo a que aderimos ou combatemos.

Dito de outra forma: estamos inseridos em “realidades existenciais” herdadas, mas, simultaneamente, cocriamos essas “realidades” de acordo com nossas interpretações e reações a elas, em um universo Objetivo-Subjetivo, impermanente, e de grande plasticidade espiritual.

Nossas reações – geralmente despertadas pelo medo – dão forma às nossas experiências agressivas e defensivas, lançando-nos em um ciclo vicioso que caracteriza a atual etapa evolutiva do fenômeno humano: nossos ancestrais, menos conscientes do que nós, criavam para si situações de maior distúrbio físico, mas, nos últimos séculos, invertemos essa equação e estamos nos envolvendo cada vez mais em ambientes de distúrbio psíquico.

Não estou certo de que a Psicologia moderna tenha compreendido em profundidade todas as consequências desse mecanismo. Estudos em neurociência têm demonstrado a importância de um certo “afastamento” cognitivo. Sim, já se sabe que somos capazes de “metacognição”, ou seja, podemos nos tornar testemunhas conscientes e “neutras” de nossos processos mentais e emocionais. Sabe-se também que esse “afastamento” metacognitivo reduz a ansiedade e o estresse, e aumenta nosso leque de escolhas para reagir diante das tensões cotidianas.

Mas, por enquanto, a melhor orientação terapêutica registrada sobre o assunto, a meu ver, encontra-se no Sermão da Montanha: “Não resistais ao maligno”.

Trata-se de uma orientação genial, mas a história demonstra que muitas ideias geniais foram relegadas ao esquecimento por serem incompreendidas e consideradas utópicas: que o diga Demócrito de Abdera, cujo teoria atômica levou mais de 2 mil anos para ser valorizada e desenvolvida até as últimas consequências.

Só posso deixar de “resistir ao maligno” se conseguir enxergar uma realidade mais profunda não condicionada pelas aparências sensoriais. Podemos nos machucar com nossas próprias armas ao lutar contra miragens no deserto. Mas se conseguirmos compreender que estamos diante de miragens, podemos depor essas armas e prosseguir.

Quando sou capaz de usar essa prática em minha vida pessoal, observo os efeitos que se desdobram a partir dela, naturalmente, mas admito que é preciso muito empenho no âmbito da consciência para fazê-lo. Essa ação da consciência é diferente da ação física e da ação mental. Não se trata de mover-se, tomar providências ou pensar…

Trata-se de estar 100% consciente e 0% pensante antes de agir. Requer-se, sem dúvida, maestria, e essa maestria só vem com a prática. Contudo, essa prática em particular é pouco cultivada por ser considerada excêntrica e anti-pragmática, exceto em algumas poucas escolas de meditação.

É notório que a maior parte daquilo que se denomina historicamente de “Cristianismo” se estabeleceu sobre algum tipo de combate ao “mal”, passando incólume à estratégia central de Inteligência Espiritual de Jesus. Se todos os que se dizem cristãos praticassem a orientação do Sermão da Montanha, certamente viveríamos em uma sociedade bem mais harmoniosa, bem mais avançada do ponto de vista de uma convivência naturalmente respeitosa e liberal. Penso que essa única prática de caráter e âmbito pessoal, nascida do Evangelho, seria mais útil à Civilização do que a criação de Igrejas, a construção de templos e a energia enorme que se gasta em proselitismo religioso pelo mundo.

Ganharíamos muito, aliás, se esse conceito fosse estudado pela Ciência. Estudiosos não compromissados com a defesa desta ou daquela instituição, desta ou daquela “escritura”, estão em melhor condição de pesquisar a resultante qualitativa da postura de pessoas que aprenderam a desmaterializar a dualidade “bem” versus “mal” que se alastra no modus vivendi das populações.

Podemos tentar negar, mas a simples atenção ao conteúdo das expressões populares e de muitas manifestações de analistas cultos, expõe a infantilidade maniqueísta em que ainda vivemos. Nos últimos tempos, esse maniqueísmo ancestral infiltrou-se nos debates políticos e vai criando animosidades sociais que dividem países, famílias, grupos de amigos e de desconhecidos… As pessoas começam combatendo as ideias umas das outras e terminam como feras que ferem e se ferem em nome de suas posições que, naturalmente, são “do bem”, contra as dos “outros” que, certamente, são do “mal”.

Poucos mantém lucidez suficiente para compreender que qualquer sistema político erguido sobre as premissas do ódio, da intolerância, da necessidade de posições dominantes e da exclusão já nasceu morto.

Que em 2021 possamos aprender a viver para além do bem e do mal.

Comentários (3)

  1. César Tucci
    01/01/2021

    Absolutamente profundo e necessário. Realmente, alcançar
    esta prática exige maestria. No meu caso, estou longe desta condição mental/espiritual, mas já me encontro entre os que se cansaram desta luta maniqueista e sente necessidade deste entendimento maior e mais sereno das coisas, embora ainda esteja lutando para desconstruir o velho modelo mental. Muito obrigado por compartilhar. É sempre bom!

  2. Christie Ballerini Portela Ferreira
    01/01/2021

    Maravilhosooo!

    Para mim aprender a viver além do bem e do mal é cultivar a LEVEZA de ser quem se é essencialmente…é a invisível serenidade e que se torna totalmente visível quando aceitamos que tudo está como deveria ser, e reconhecemos que na verdade verdadeira e essencial não existe melhor ou pior, e que tudo flui SIM quando permitimos que o SOPRO NATURAL direcione o real SENTIDO DA VIDA.

  3. Marco Antônio Ferraz
    27/01/2021

    Muito bom! Principalmente agora que estou lendo “A arte de curar pelo espírito “, sob sua indicação. Fica ainda mais claro. Você deveria escrever um artigo sobre o real e o irreal. Meu abraço

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Lista de Espera Receba um alerta por e-mail quando o produto estiver disponível. Informe seu melhor e-mail e nosso sistema lhe avisará automaticamente assim que o produto estiver em estoque.