Os Políticos do Amanhã – Caminhos Vida Integral
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Os Políticos do Amanhã

Temos ouvido muitas críticas, mas quase nenhum plano ou projeto consistente, abrangente e inovador para o aprimoramento da Política brasileira, como se nada pudesse ser feito para elevar o nível comportamental de nossos líderes. Lecionando para jovens em diversas cidades do país, sinto um silencioso desalento a impregnar-se no olhar de meus alunos. É mais fácil exigir dos jovens brasileiros que acreditem em Papai Noel do que depositem sinceras esperanças em nossa classe política. Partidos políticos já saíram e outros entraram no poder em todas as esferas: os de direita, os de esquerda, os de centro… e os comportamentos são sempre muito semelhantes: em vez de serem nossos, os políticos passam a ser representantes de suas próprias ambições, do poder pelo poder, do sistema eleitoral como um fim em si mesmo. As almejadas transformações na educação, na cultura, na saúde, na segurança e na economia, requisitos básicos de uma vida digna para o povo, ficam sempre adiadas.

O paradoxo é que esses mesmos jovens, muitos deles desempregados, e a maioria subempregada se compararmos seus grandes potenciais às “baias” em que trabalham, vivem se defrontando com processos fortemente seletivos do tipo: ENEM, vestibular, entrevistas de emprego, concursos públicos… Espera-se deles muita competência na hora desses processos, a mesma que eles raramente conseguem enxergar nos governantes que se exibem na vitrine da vida pública.

Mas não escrevo para maldizer o dia de hoje. Prefiro olhar para a frente. Apesar dos pesares, sou grato ao Brasil, país em que vivi a maioria dos meus 52 anos e onde pretendo morrer. Se nossos sonhos são sorvetes em pleno sol, podemos nos reinventar, criar utopias e persegui-las. Desistir não é uma opção. Portanto, vamos aos planos.

Para criá-los, usarei uma representação visual conhecida como Matriz Integral, instrumento criado pelo filósofo norte-americano Ken Wilber, autor do livro Psicologia Integral. A função dessa matriz é analisar (e sintetizar) um problema pelas quatro perspectivas principais em que experimentamos a realidade.

Quais são nossas intenções?

Sobre os Lobos e os Anjos

O filósofo Plotino (204-270), um dos mais importantes pensadores da Antiguidade, situava o ser humano entre os animais e os Anjos. Segundo sua concepção, poderíamos escolher entre a lama e o céu. Nossos hábitos determinariam a altitude de nossa existência. O psiquiatra e terapeuta Viktor Frankl (1905-1997), criador da Logoterapia, que tem auxiliado milhões de pessoas a ressignificar suas vidas, modernizou a concepção de Plotino, ao dizer: “Sem dúvida, o homem acha-se envolvido por uma série de condicionantes. Esses condicionantes, contudo, são os pontos de arranque para a sua liberdade”.

Outro pesquisador contemporâneo que nos ajuda a fazer uma releitura desse fenômeno em termos científicos é o cognitivista Howard Gardner, PhD, Diretor do Projeto Zero na Universidade de Harvard. O criador da Teoria das Inteligências Múltiplas ensina que “a trajetória do desenvolvimento pode ser vista como o declínio contínuo do egocentrismo”. Nesse sentido, enquanto o indivíduo não amadurece e não se desprende de si mesmo, enquanto ele não consegue ir além de suas metas egocêntricas ou etnocêntricas, seria ideal que não desenvolvesse muito suas competências e que não assumisse posições de poder. Não há nada mais perigoso no mundo do que um poderoso e competente mal-intencionado.

Para tentar exprimi-la, apresento essa ideia em um gráfico simplificado:

Quando um indivíduo amadurece (a idade não o garante), torna-se mais desprendido em relação a si mesmo. Não quer dizer que não saiba cuidar de sua própria saúde e bem-estar, mas significa, sim, que seu prazer maior está centrado nas atividades que geram benefícios à sociedade, ou seja, sua prioridade é contribuir. Ele quer usar seus melhores talentos para uma causa que faça sentido para si, algo que se torne para ele um verdadeiro propósito. Um indivíduo está maduro quando passa a entender que a sua capacidade de gerar entendimento, cooperação e integração em todos os níveis é mais importante do que provar que seu posicionamento político está correto.

A raiz de toda atividade política começa nas intenções. Tudo bem se os Anjos não quiserem se candidatar, contudo, por favor, evitemos votar nos lobos vorazes.

Que tipo de cultura queremos criar?

Sobre o malandro que ainda vive dentro de nós

O Brasil ainda vive a cultura do jeitinho. Nossa malandragem proverbial está mais viva do que nunca no jogo político atual, com consequências funestas para todos nós. Basta fixar o olhar desalentado de meus alunos para entender o pedido de socorro: “Alguém aí na sua geração pode dar um futuro para a nossa?”.

Em seu polêmico ensaio crítico Dialética da Malandragem, o saudoso professor Antonio Cândido (1918-2017) expõe as raízes sociais desse flagelo. Nenhum brasileiro é inteiramente honesto ou desonesto. Cada um de nós, segundo Cândido, exprime uma determinada mistura de ordem e de desordem, e dessa mistura é feita a nossa história, desde que Pero Vaz de Caminha (1450-1500) aproveitou a carta em que comunicava a Dom Manuel (1469-1521, rei de Portugal,) o achamento do Brasil, para pedir a ele um emprego para seu genro. O problema é que metade da ordem gera apenas metade do progresso. Por isso, vamos aqui ora avançando ora retrocedendo.

Que posso fazer por meus alunos? Primeiramente, digo-lhes que aqueles que acreditam estar imunes ao “jeitinho” não entenderam ainda a força da influência do meio cultural sobre os indivíduos. Por outro lado, para aqueles que creem que nunca seremos capazes de superar essas mesmas influências, afirmo que ainda não compreenderam a capacidade que as pessoas têm para romper quaisquer bloqueios condicionantes.

Então, penso nos meus estudos sobre a capacidade humana de transformação e proponho uma mudança coletiva de comportamento, ou seja, uma transformação cultural no Brasil. Interessados, eles me perguntam: “Como fazer isso, professor?”. Respondo com as conclusões das pesquisas do professor Robert Kegan, da Universidade de Harvard, autor do livro Imunidade à Mudança. Kegan constatou que o primeiro passo para a mudança cultural é a vulnerabilidade, a aceitação desarmada de que nosso comportamento inadequado atual existe por alguma razão necessária, qualquer tipo de recompensa ou ganho imediato. Nosso jeitinho prospera pela crença inconsciente de que necessitamos de vantagens imediatas para vencer na vida. Não precisamos nos autoflagelar por isso, mas observar essa crença, aumentar a consciência sobre ela é vital se quisermos transcendê-la. Assim sendo, o segundo passo é justamente observar nossos comportamentos malandros e refletir tranquilamente sobre eles: Nós somos esses comportamentos ou eles apenas se alojaram em nossa psiquê, tornaram-se hábitos inadvertidos, os quais podemos superar quando desejarmos fazê-lo? Poderíamos escolher outras formas de realizar as coisas, as quais nos trariam resultados maiores e melhores do que esses “ganhos” atuais que sempre terminam em perdas para todos?

Peço aos meus alunos que façam exercícios que denomino de “meditação de desidentificação”, até sermos capazes de enxergar e almejar novas possibilidades. Quando eles, então, estimulados ao amadurecimento, perguntam-me sobre qual cultura poderíamos adotar no lugar do “jeitinho”, respondo que, respeitando nossa natureza acolhedora, flexível e criativa, seríamos capazes de empreender mais. Poderíamos, aliás, canalizar nossa energia para a criação de novos modelos de economia colaborativa e, quem sabe, até mesmo ressignificar o capitalismo contemporâneo de modo que se torne um verdadeiro humanismo: que o acúmulo de riquezas como um fim em si mesmo dê lugar ao desenvolvimento do potencial humano como o grande fim, e a geração de riqueza passe a ser compreendida como um meio. Essa seria uma cultura que valeria a pena e faria do Brasil um país admirado pelos seus melhores potenciais.


Fórmula do Socialismo Tradicional:

  • O Estado deve controlar os meios de produção, e as pessoas devem servir ao Estado que, supostamente, deve distribuir as riquezas entre todos de forma igualitária.

Fórmula do Capitalismo Tradicional:

  • O crescimento das riquezas, mesmo que concentradas por minorias, acabará supostamente beneficiando a todos. As pessoas são vistas como recursos para o atingimento de finalidades econômicas. Daí a expressão “Recursos Humanos”.

Fórmula do Capitalismo levemente Humanizado:

  • As pessoas são recursos preciosos para o atingimento de finalidades econômicas, inclusive pelo conhecimento que elas podem trazer ao negócio. Por isso, temos de tratá-las muito bem.

Fórmula do Humanismo Pós-Moderno:

  • O Capital e o Estado são meios para apoiar e promover o Desenvolvimento do Potencial Humano. Todas as pessoas têm o direito de receber os estímulos adequados para o Florescimento de seus potenciais. A sociedade inteira deve estar mobilizada para esse fim, e a missão dos políticos é a de mediadores desse processo.

 

Que comportamentos precisamos mudar?

Sobre Doutrinas e Exemplos

A questão central que conduziu as distinções políticas da democracia na era moderna foi – pelo menos em teoria – a do posicionamento político-partidário. A ideologia subjacente e a qualidade dos programas que cada partido teria a apresentar aos eleitores deveriam colocar em relevo o determinante das escolhas finais. Você vota no candidato X que representa tais ideias e tais programas. Eu opto pelo candidato Y que defende outras ideias e outros programas.

Na pós-modernidade, essa forma de pensar não é mais suficiente, porque tais programas, para terem sustentação, precisam estar ancorados no desprendimento e em comportamentos exemplares. É o mesmo que se dá com as Religiões. Um jovem me abordou numa palestra e me disse que não confiava mais em líderes religiosos e espirituais, porque havia presenciado abusos por parte de dois deles ao longo de alguns anos. Por mais bem-intencionada que seja a doutrina religiosa, sua influência será limitada pela qualidade dos exemplos fornecidos pelos seus líderes, coisa difícil de se garantir. A desilusão com as lideranças em geral e com os líderes políticos em particular parece crescer numa constante, o que ameaça a estabilidade dos governos. É uma crise, e das mais graves. Aqueles que, como eu, acreditam que sua principal contribuição está focada no campo da educação precisam encontrar modelos educacionais voltados para a formação das próximas gerações de políticos.

Com o auxílio de psicólogos e educadores, os partidos políticos terão de investir cada vez mais no problema dos comportamentos de seus membros. Poderiam aproveitar também a experiência de tradições espirituais. Um bem elaborado código de ética, a exemplo do famoso Caminho Óctuplo do Budismo, poderia ser discutido em eventos frequentes. Acredito na efetividade de reuniões semanais para alinhamento de posturas e comportamentos do grupo em torno de valores essenciais. Perguntas que poderiam orientar as reuniões:

Quais comportamentos inadequados observamos entre nós na semana que passou? Quais as evidências desses comportamentos? O que poderíamos ter feito de modo diferente e melhor?

Quais de nossos valores essenciais conseguimos transformar em comportamentos na semana que passou? Quais as evidências? Podemos fazê-lo novamente?

Quais comportamentos do nosso código de ética elegeremos para vivenciar na para a próxima semana?

De quais novos sistemas necessitamos?

Sobre a altura da barra

Sistemas são poderosos. Quando, por exemplo, uma empresa implementa determinado sistema de remuneração e ou de bonificação para os seus colaboradores, os comportamentos são impactados. Se a forma de bonificação for muito competitiva, a rivalidade interna aumentará. Se, ao contrário, o modelo incentivar a cooperação, os empregados se tornarão mais colaborativos.

Não sou um especialista em sistemas políticos, mas ensino liderança há vários anos e estou certo de que precisamos de inovação nessa área. Temos de subir a barra tanto da maturidade quanto das competências para selecionar nossos candidatos. A todos nós, eleitores, é dito que devemos aprender a votar corretamente, mas, muitas vezes, nos vemos impossibilitados de fazê-lo por falta de informações acuradas, ou simplesmente por não haver boas opções. Não acredito que o Brasil, um país de dimensões continentais, seja estéril no quesito “excelência em liderança”. Também não penso que outros países sejam modelos melhores do que o nosso. Os norte-americanos, por exemplo, parecem estar confusos com sua capacidade de escolha. Talvez seja mais adequado criar um processo todo nosso, que teria de incluir critérios que desincentivassem os indivíduos que enxergam na política uma carreira particular ou uma instância fácil para obter poder e dinheiro. Os salários dos cargos eletivos deveriam ser módicos, assim como os benefícios deveriam ser temporários. Em alguns países europeus, os políticos não têm carros funcionais. Andam de metrô e de ônibus para, inclusive verificar a qualidade do transporte público pessoalmente. Nesse tipo de sistema, as pessoas atraídas para a política são missionárias, gente vocacionada ao serviço do bem público.

Esses novos sistemas precisariam testar as competências, as mentalidades e as intenções dos candidatos a candidatos. Um comitê de notáveis, representando as mais diversas profissões, sem conhecer previamente a identidade dos candidatos a candidatos, nem a que partidos pertencem (não é tão difícil tornar esse processo impessoal), examinaria uma série de indicadores antes de aprová-los para irem em frente. Exames de perfil psicológico, assessments de forças de caráter, provas de competências gerais e específicas seriam pré-requisitos para candidatos de todos os partidos. Observem que esses exames não se baseariam exclusivamente em pressupostos teóricos. O que precisa ser testado são elementos de caráter e de competência, que é o que se procura em um Líder. Pesquisas de opinião realizadas no mundo inteiro demonstram que os traços mais buscados no perfil de um líder são integridade e empatia.  Ao final dos exames, os melhores ingressariam no pleito. A Ciência do Desenvolvimento Humano tem avançado muito. Precisamos aplicá-la à qualidade da Política.

Outra ideia é ministrar cursos de cidadania para empoderar a população. Programas apartidários criados com a anuência dos representantes de todos os partidos, que ensinariam o eleitor a selecionar seus candidatos. O que perguntar a eles? O que procurar em suas propostas? Como conhecer melhor o seu histórico? Como acompanhar sua gestão? … e daí por diante. As pessoas devem votar em quem quiser, mas elas precisam ser mais bem preparadas e informadas antes de escolher. Em vez de tanto dinheiro gasto com propaganda de promessas nas vésperas das eleições, penso que seria melhor investir boa parte desse dinheiro para disponibilizar um grande banco de dados, de fácil acesso, com uma interface amigável, em que as pessoas poderiam acessar a biografia de seus candidatos, a história de seus partidos, as escolhas que fizeram no passado, as posições que tomaram nas votações de projetos e seus programas atuais.

Sonhar não é proibido

Sobre tudo o que falta fazer

Intenções, cultura, comportamentos pessoais e sistemas… Tudo isso se soma na solução de um problema que vale a pena ser resolvido, se, de fato, amamos os nossos filhos e netos, e se queremos que eles vivam num mundo melhor.

É verdade que essas metas parecem fora de nosso alcance. Vejo-as como se estivessem difusas no longínquo infinito. Consola-me saber, contudo, que, no passado, propostas como a abolição da escravatura também foram consideradas utópicas ou coisa de poeta. Que o diga Castro Alves (1847 – 1871), que muito jovem escreveu estes versos aos Políticos do Amanhã:

E vós, arcas do futuro,

Crisálidas do porvir,

Quando vosso braço ousado

Legislações construir,

Levantai um templo novo,

Porém não que esmague o povo,

Mas lhe seja o pedestal.

Trate-se ou não de uma utopia, felizes daqueles que abraçarem essa causa, pois o tamanho de nossos ideais determina a grandeza de nosso Espírito. As causas mesquinhas nos mantêm apequenados, as que são nobres induzem-nos à grandeza interior. Sugiro que o façamos por Amor, aquele Amor que segundo Dante “move o sol e os outros astros”, aquela força que é uma causa infinita.

Os artigos anteriores estão publicados no blog da Caminhos em www.caminhosvidaintegral.com.br

 

Luciano Meira
Cofundador da Caminhos Vida Integral e Diretor de Metodologia do IPOG

Comentários (2)

  1. Domingos
    16/06/2017

    Bem legal! Dissemine!

  2. Cynthia Lanza
    16/06/2017

    Texto denso, instigante e inspirador. Nos faz refletir sobre nossas ações, sobre nossas intenções, nossas escolhas. A responsabilidade por um Brasil melhor em todos os sentidos está em nossas mãos. Parabéns pelo texto Luciano.

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