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Bullying na escola, há algum culpado?

Recentemente uma escola goianiense foi vítima de uma situação trágica. A mídia reporta que um jovem, vítima de bullying constante por parte de alguns pares, disparou, com a arma de fogo de seus pais, contra os colegas, matando dois e deixando alguns feridos.

Ironicamente a escola possui o nome da tribo pacata que deu origem também ao nome da cidade ou estado — Goyazes. A história não é clara se a tribo foi dizimada em lutas com os sertanistas, ora miscigenados. A verdade é que há muitos mitos acerca deles e pouco se sabe. O imaginário popular, geralmente pleno de doutos, cria as suas narrativas e permite que elas se propaguem rapidamente.

Hoje, mais do que nunca, o princípio básico de qualquer investigação é a livre e independente busca da verdade — livre de quaisquer ideias pré-concebidas. Até porque, quando já temos uma ideia — nos ensinam vários ramos da psicologia — tudo o que vemos comprova a ideia!

E é, de certa forma, isso que tem acontecido com a leitura da situação na escola!

Temos a tendência de olhar para cada um dos jovens envolvidos com a situação e tecer comentários sobre suas ações. Tanto os que perpetraram o bullying, como o que disparou os tiros. Definimos em nossas mentes que são as verdadeiras vítimas e quem são os responsáveis. E julgamos, desde as forças policiais e políticas, até à direção da escola, os familiares e os jovens.

A verdade é que cada situação complexa na vida é complexa porque tem vários ângulos pelos quais deve ser analisado.

  1. Desde um ponto de vista subjetivo, temos a psicologia e o sofrimento humano. Como se cuidaram de aspectos individuais de cada um dos envolvidos? Quantas vezes paramos para escutar os que causam o bullying e ajudar-lhes a compreender e respeitar a diversidade? E quantas vezes trabalhamos com os que são vítimas desse ato e ajudamo-los a desenvolver resiliência?
  2. Do ponto de vista biológico, sabemos lidar com a energia dos mais jovens e ajudar-lhes a canalizar essas energias para atividades construtivas ou consideramo-los agentes passivos vítimas de seus lóbulos frontais ainda por amadurecer? Damo-lhes oportunidades para fazerem algo construtivo com suas capacidades ou simplesmente dizemos que é “uma fase” e passará?
  3. E do ponto de vista cultural? Temos uma cultura imediatista e competitiva. Para sobreviver a ela, ensinamos aos nossos filhos que precisam estar por cima, o tempo todo. E eles aprendem que para estar em cima, precisam de outros abaixo, menosprezando-os e diminuindo-os. O que ocorre com uma sociedade que ignora virtudes como perseverança, integridade, entusiasmo, empatia, generosidade, senso de equipe, perdão, humildade, prudência ou auto-controle, e substitui-as por auto-valorização exagerada, exibicionismo vontade de ter mais que o outro?
  4. Por fim, desde uma perspectiva social podemos afirmar que a escola ou a família deve ser a única imputável por tudo isso? Ou será que caberia também às regras e legislações abrandarem ou estreitarem seu escopo de ação?

 

Essas são algumas questões que devemos ter em mente para compreender que não é mudando um dos elementos, ou culpando-o que se resolve o processo. Um elefante não é a soma de suas orelhas, tromba, patas ou cauda. Mas o elefante está no meio da sala e precisamos compreende-lo e ajuda-lo antes que ele destrua tudo.

O mesmo acontece aqui. Enquanto alguns “intelectuais” de plantão podem nos dizer que a culpa é ou não da arma de fogo, do bullying, deste ou daquele jovem ou até das famílias, se tivermos clareza de visão percebemos que a responsabilidade é de todos. À medida que a nossa liberdade foi ampliada nas últimas décadas, a nossa responsabilidade por tudo o que acontece à nossa volta também.

Somos seres cada vez mais autônomos que fazem o que querem, mas também muito mais integrados na coletividade e, por isso, cada ato nosso influencia todo o mundo. Estudos da psicologia positiva comprovam que a nossa felicidade influencia em 5-10% pessoas que nem conhecemos. Imagine a nossa raiva, frustração, o nosso stress ou desespero.

Sentimentos que advém de uma sociedade que perdeu o seu senso de busca de sentido para a vida. Viktor Frankl, pai da Logoterapia, dizia que um dos males da era é o vazio existencial e que em suas consequências se incluiriam o excesso de transtornos mentais mas também a violência. E talvez esteja aqui o cerne da questão.

Precisamos descobrir, cada um e todos nós, como encontrar no que fazemos, nas relações que temos e amamos, e também no sofrimento o nosso papel no mundo e assumir que somos responsáveis por ele. Não se trata de reduzir o fenômeno e delegar culpas, mas de pensarmos como podemos ter um mundo onde somos capazes de criar projetos pragmáticos e realistas que nos permitam usar o melhor de nossas personalidades e transcender, irmos para além dos nossos próprios interesses, vencer desafios e barreiras que nos permitam criar em nossos jovens, não máquinas de sofrimento ambulante que querem acabar com suas dores matando ou morrendo, mas seres que sabem canalizar as suas energias para a melhora do mundo. Permitir aos nossos jovens não só respeitar a diversidade, como aprecia-la. Ajudar os nossos mais novos a desenvolverem em si um senso de camaradagem que permita compreender que todos estamos interconexos, que não adianta amarmos apenas a nós mesmos, ou nossos amigos e familiares, mas a todos.

Para isso precisamos escuta-los, em ambientes nos quais se sintam seguros, livres de julgamentos. Com isso eles entenderão que diálogo não é uma concessão de opiniões ou competição por vencer a conversa. Mas diálogo é apenas a palavra que reflete a verdadeira natureza das relações humanas: relações nas quais sentimentos negativos são permitidos, sofrimentos existem, mas a capacidade de juntos encontrar um sentido para esse sofrimento, transformando-o em aprendizado também é real.

O que levou a tragédia, será como o mistério que levou ao desaparecimento da tribo que deu origem aos nomes da nossa cidade e da escola. Mas o que permitirá que essa tragédia não aconteça novamente é o aprendizado que esse triste sofrimento nos pode causar para aprendermos e ensinarmos àqueles mais jovens que nos acompanham o poder da resiliência e do respeitoso amor.

Autor: Sam Cyrous, cidadão do mundo, capaz de ver em cada ser humano a faísca para o crescimento coletivo, é professor de instituições de ensino, como IPOG (matriz em Goiânia) e a Universidade Católica do Petrópolis; Escritor com artigos publicados em português, espanhol, inglês e romeno; Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento Estratégicos da Federação das Associações de Jovens Empreendedores e Empresários do Estado de Goiás; Diretor da Associação Brasileira de Logoterapeuta e Análise Existencial; Curador do TEDxGoiânia; Empreendedor social homenageado quatro vezes pela sua atuação em Direitos Humanos, pela Assembleia Legislativa de Goiás e pela Câmara Municipal de Goiânia.

Comentários (2)

  1. IZABEL
    03/11/2017

    Exvelente reflexão!

  2. Alexandre Wahbe
    08/11/2017

    Excelente

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