7 jun 2019

Sem lama, sem lótus: Encontrando Resiliência em Tempos Difíceis

Se você se sentir perdido, desapontado, hesitante ou fraco, volte-se para si mesmo, para quem você é, aqui e agora, e quando você chegar lá, descobrirá a si mesmo, como uma flor de lótus em pleno florescimento, mesmo em um lago lamacento, bonito e forte. Masaru Emoto

Segurando um cartão de uma mulher cujo marido, o pai de seu filho de 4 anos, havia sofrido um derrame, minha professora de ioga[1] reverentemente abriu a aula. O cartão simplesmente dizia: “Sem lama, sem lótus”.

No restante da aula, praticamos posturas de yoga com afinco – como a flor de lótus que surge vitoriosa e limpa sobre águas turvas – representação do modo como cada um de nós pode superar os dolorosos desafios da vida. Em muitas tradições, a flor de lótus simboliza a purificação da mente, do corpo e da fala; o despertar e o desapego. Ela incorpora resiliência, como quando as nuvens escuras de chuva deslizam facilmente para fora de suas pétalas e ela se abre para o sol vindouro. Em cada pose praticamos a observação com mente plena e fazemos as pazes com a escuridão sob a lótus – nosso medo, nossa tristeza, nossa raiva e outras sensações difíceis, para que pudéssemos nos libertar deles. Nós experimentamos a lótus visceral dentro de nossos próprios corpos.

Abraçar as águas lamacentas e turvas da perda, do fracasso, do desapontamento ou de outras emoções negativas, que cada um de nós nos deparamos na vida, é mais fácil falar do que fazer. Você pode perguntar: como cultivamos nossas próprias flores de lótus metafóricas e emergimos triunfantemente da escuridão? Ao refletir sobre a lótus, lembrei-me do trabalho semelhante que conduzo com meus clientes de coaching.

A chave para administrar as emoções negativas é, em primeiro lugar, observar com mente plena

Sem desaprovação, julgamento, culpa, fuga ou resistência ao fato desconfortável que se apresenta, podemos aprender a lidar com as dificuldades de forma mais produtiva. Uma maneira simples de descrever a mente plena (mindfulness) é tornar-se um “observador objetivo” do momento presente. Isso nos transfere rapidamente da porção primitiva do nosso cérebro, focada no medo, para a mais evoluída, o cérebro superior, onde as soluções podem ser criadas. Isso é importante, porque o medo nos rouba energia essencial e clareza para resolver nossos desafios. Podemos aprender a nos concentrar em usar nossas forças para soluções, o que promove a resiliência e é energizante.

Ser consciente leva a uma vida verdadeira e autêntica. É o primeiro passo para transformar nossas emoções negativas e criar um futuro melhor. Quando lidamos honestamente com nossas emoções, podemos estender a compaixão a nós mesmos. A autocompaixão requer primeiro uma abordagem equilibrada e consciente de nossas emoções negativas, de tal forma que nossos sentimentos não sejam nem suprimidos, nem exagerados. E é desta experiência que aprendizado e crescimento emergem.

Vivenciar uma emoção negativa não significa que não preferimos, esperamos ou trabalhamos em direção a algo melhor. Não é uma abordagem passiva da vida. Em vez disso, ser cuidadoso nos permite experimentar momentos difíceis como conflito, estresse ou fracasso – aprender e crescer a partir dessas experiências – tornando-os menos agudos e mais controláveis. E mais, nos ajuda a superar nossas aflições, de modo que começamos a viver a vida de uma maneira mais produtiva.

O efeito “desfazedor” das emoções positivas

As emoções negativas são parte da vida. Algumas eu chamo de “autênticas”: porque elas inspiram mudanças positivas e levam ao crescimento. Algumas eu chamo de “falsificação”: nos incapacita, resultando em estresse e sofrimento inúteis. Uma vez que você tenha feito a distinção entre fé e falsificação, o próximo passo para “desfazer” uma emoção negativa é cultivar intencionalmente uma emoção positiva para tomar o seu lugar. Pesquisas sobre o “efeito desfazedor” das emoções positivas sugerem que as pessoas podem melhorar seu bem-estar evocando emoções positivas em momentos oportunos para lidar com emoções negativas. Induzir uma emoção positiva pode afrouxar a influência que uma emoção negativa ganhou na mente e no corpo de uma pessoa. Por exemplo, se você está se sentindo rejeitado depois de saber que alguém conseguiu a promoção que você queria, pode cultivar a emoção (e a força de caráter) da gratidão ao se concentrar de forma intencional noutros aspectos positivos da sua vida. Isso nos ajuda a aprender a nos autorregular e a nos colocarmos em primeiro plano, fortalecendo nossa saúde emocional, nossos relacionamentos com os outros e nos tornando mais produtivos e satisfeitos.

Podemos extrair força de exemplos de pessoas que emergiram triunfantemente das águas turvas da perda e mudaram seu foco para o que “têm” ao invés do que “perderam”. Um exemplo inspirador é o arquiteto cego Chris Downey. Ele começou a perder a visão dois dias após a cirurgia para remover um tumor no cérebro e, no terceiro dia, ele ficou completamente cego. No entanto, apesar dos dolorosos desafios que se seguiram, Downey afirma que nunca considerou desistir de seu trabalho em arquitetura. De acordo com ele, aos 45 anos, acordar cego e sem olfato (também perdido na cirurgia) era “francamente, realmente aterrorizante”. Mas, quando entrevistado sobre o desenvolvimento resultante de sua habilidade arquitetônica para projetar edifícios com acomodações adaptadas para os cegos, ele respondeu: “Estou absolutamente convencido de que sou um arquiteto melhor do que quando eu enxergava.”[2] E quando perguntado se, caso  recuperasse a visão amanhã, ele ainda usaria o seu novo caminho para “sentir” os projetos que ele cria, ele respondeu: “Haveria alguma facilidade nisso. Mas isso tornará minha vida melhor? Eu acho que não.”

Construindo Resiliência

Resiliência significa encontrar significado e propósito dentro das “perdas” da vida, bem como nos “sucessos” da vida. É a capacidade de se recuperar rapidamente das dificuldades ou dos desafios.

É importante lembrar que é possível cultivar gratidão e outras emoções positivas no meio da tragédia.

Um ingrediente-chave na construção da resiliência é ancorar nosso autoconceito nas forças autênticas de caráter que definem nossa singularidade. Psicólogos adeptos da Psicologia Positiva identificaram vinte e quatro forças – os blocos básicos de construção que representam nossa individualidade, psicologicamente falando. Cada um de nós possui todas os vinte e quatro em vários graus e combinações. Essas forças, universalmente valorizadas, são definidas como traços positivos que são benéficos para nós mesmos e para os outros. Eles nos levam às emoções positivas, relacionamentos e atividades de vida envolventes e significativas, quando florescemos.

Entender as suas forças de caráter pode aumentar sua confiança na sua própria capacidade de lidar com qualquer desafio que surja em seu caminho. Ninguém pode prever o futuro, e muitas vezes criamos estresse indevido focando e nos preocupando demais com o que “pode acontecer”. Embora não possamos de fato prever o futuro, podemos optar por nos concentrar, com gratidão, em nossas forças, aumentando nossa confiança e capacidade de lidar com o que quer que o os dias seguintes tragam.

Basear seu autoconceito em suas forças constrói sua resiliência para permanecer forte onde quer que vá e independentemente do que lhe aconteça. Pessoas como Chris Downey são exemplos, não apenas de resiliência, mas também de crescimento pós-traumático. Pesquisas mostram que a resiliência e o crescimento pós-traumático correspondem aos seguintes pontos fortes:

  • Melhor relacionamento (bondade, amor)
  • Abertura para novas possibilidades (curiosidade, criatividade, aprendizado)
  • Apreciação da vida (apreciação da beleza, gratidão, entusiasmo)
  • Força pessoal (bravura/coragem, honestidade, perseverança)
  • Desenvolvimento espiritual (espiritualidade)

Outra pesquisa sobre a construção de resiliência mostra que a bravura é uma das forças de caráter mais claramente associadas à resiliência. Verificou-se que a bravura estava relacionada à recuperação da satisfação com a vida após a doença física[3] e o crescimento pós-traumático[4]. A resiliência também envolve o desenvolvimento da coragem, que é definida como a capacidade de enfrentar situações nas quais sentimos medo ou hesitação (ou seja, bravura). As pessoas que desenvolvem bravura não se esquivam de ameaças, desafios, dificuldades ou dores, e são capazes de enfrentar situações adversas com maior resiliência.

Conexão, cuidado, criação

Todos experimentam desafios e decepções – portanto, as emoções negativas são uma parte inevitável da vida. Em meu livro, Authentic Strengths[5], eu sintetizei técnicas baseadas em evidências para gerenciar as emoções negativas numa ferramenta fácil de lembrar que eu chamo de “Conexão-Cuidado-Criação”. Essa ferramenta pode ajudá-lo a processar emoções negativas comuns associadas às decepções pessoais e profissionais, perdas ou fracassos.

Primeiro, porque nosso cérebro tende a exageradamente focar num único evento e a ficar preso em um ciclo interminável de ruminação, o processo de três etapas da ferramenta Conexão-Cuidado-Criação começa com foco consciente no nosso corpo e na observação da emoção, o que ajuda a parar a ruminação, dando ao nosso cérebro algo novo e objetivo para focar. Em segundo lugar, isso nos leva ao autocuidado e à autocompaixão, ajudando-nos a aceitar que as emoções negativas são parte da vida, reconhecendo que não estamos sendo “tratados como párias”. E terceiro, esse processo nos ajuda a dissolver a emoção negativa usando as nossas forças de caráter como uma lente para abordar a questão, criando assim uma nova perspectiva/emoção positiva para desfazer o efeito da emoção negativa. Há evidências de que memórias negativas e as emoções ligadas a essas são maleáveis ​​à mudança[6] logo após serem lembradas, especialmente na hora seguinte[7].

Então, em poucas palavras, aqui está a ferramenta:

Conexão – Encontre um lugar calmo e seguro e fique em uma posição confortável. Relaxe e respire calmamente. Fechando os olhos, “conecte-se” observando com mente plena, atentamente e com calma, uma emoção negativa que você está sentindo ou sentiu no passado, que você se sente seguro para explorar neste momento. Observe todos os aspectos da emoção sem julgá-la, envergonhá-la ou evitá-la. Apenas permita-se observar objetivamente, sendo gentil e compassivo consigo mesmo. Nomeie a emoção sem culpar ninguém ou coisa alguma, por exemplo, “Eu me sinto ansioso e com medo”. Onde em seu corpo você mais sente a emoção (seu estômago, ombros, coração, costas, pulmões etc)?

Cuidado – Pratique o autocuidado. Relaxe a área onde você está retendo a emoção negativa. Pode ser útil colocar sua mão no exato local onde sente sua emoção com uma intenção de cura. A cada expiração, imagine-a soltando-se desse ponto do corpo, dissolvendo-se como um cubo de gelo em água morna. Envie para si mesmo compaixão, lembrando-se de que todos experimentam momentos difíceis, perdas, erros e falhas. Assegure-se de que tudo ficará bem, de que você se dará o apoio necessário para superar essa experiência e tomará as medidas necessárias para

melhorar a situação. Também é útil envolver-se em um ritual positivo que libere a emoção, como falar com alguém em quem você confia, que terá compaixão por você, passear, praticar ioga, orar, meditar, ouvir música edificante, ler algo inspirador, escrever sobre sua emoção e jogar fora, tomar banho, etc… o que tende a elevar o seu espírito.

Criação – Reconheça que você tem a opção e a capacidade de responder a essa emoção difícil de maneiras novas e criativas. Identifique uma força de caráter – como esperança, perdão, perspectiva, bravura, criatividade, bondade, gratidão etc – para ajudá-lo a transformar essa emoção negativa e a criar uma mudança positiva para uma perspectiva que melhor lhe atenda. Como você pode aprender e crescer com essa experiência? Que novas emoções positivas você está sentindo agora? Observe que a emoção negativa gradualmente se dissipa e perde seu poder sobre você, à medida que novas emoções positivas são criadas em seu lugar. Comemore esse sentimento emancipador, presenteando-se com uma atividade feliz para você.

Ao praticar essa ferramenta, as pessoas relatam uma sensação de alívio, liberação e liberdade da ruminação, que as abre para um crescimento real. A parte mais encorajadora dessa abordagem é que podemos aprender a processar produtivamente as emoções negativas. Afinal, você é a única pessoa em sua vida que está sempre por perto quando está sentindo emoções negativas, então, por que não aprender a se dar o melhor antídoto?

Aviso legal: Algumas emoções negativas, como aquelas enraizadas em problemas de saúde mental, abuso de substâncias, ambientes abusivos etc, são melhor abordadas com a ajuda de um profissional médico ou terapeuta graduado. Por favor, se esse é seu caso, procure pela ajuda adequada.

Fatima Doman é fundadora e CEO da Authentic Strengths Advantage, autora, palestrante e coach executiva que motivou audiências em seis continentes para alavancar suas forças autênticas. Uma voz globalmente reconhecida em liderança, engajamento, resiliência, bem-estar e mudança positiva, Doman é apaixonada por capacitar as pessoas para um alto desempenho sustentável – no trabalho e na vida. Seus livros, Authentic Strengths e True You foram apresentados pelo Huffington Post, Psychology Today, na TV, rádio, e-learning, e seus treinamentos, certificações e meditações foram licenciados globalmente. Saiba mais: AuthenticStrengths.com.

No Brasil, a ASA é representada pela empresa Caminhos Vida Integral (www.caminhosvidaintegral.com.br).

Referências:

[1] Susan Fendler é a proprietária e professora de yoga da parkcityspayoga.com.

[2] Architect Goes Blind, Says He’s Actually Gotten Better At His Job, Lesley Stahl, Correspondent, 60 Minutes, January 2019 Issue.

[3] Peterson et al., (2006) Greater Strengths of Character and Recovery from Illness

[4] Peterson et al., (2008) Strengths of Character and Posttraumatic Growth

[5] N.T.: a ser lançado no Brasil pela Editora Vida Integral (www.editoravidaintegral.com.br), no segundo semestre de 2019, com o título Forças Autênticas.

[6] Monfils et al (2009), Reconsolidation: Maintaining Memory Relevance

[7] Hanson, R. and Mendius, R., Buddha’s Brain (2009)

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