31 maio 2017

A Espiritualidade Pós-Moderna

No mais recente artigo que escrevi, sob o título “Como tornar efetivos os treinamentos organizacionais – e porque para isso as organizações terão de se tornar Escolas do Florescimento do Potencial Humano”, referi-me à Espiritualidade Pós-Moderna. Alguns amigos pediram-me para elaborar o assunto mais detalhadamente, razão pela qual resolvi publicar este texto complementar.

Espiritualidade Pós-Moderna é o termo que tenho utilizado para enfatizar a necessidade de fortalecimento do Espírito Humano: a urgência de enriquecermos nossa vida interior, nossa dimensão subjetiva, aquela dimensão em que se encontra nosso verdadeiro potencial de autenticidade, de sentido, de liberdade, de contribuição, de amorosidade. Ora, se todos os sonhos humanos são passíveis de realização, por que não sonhar com o desenvolvimento espiritual de toda a Humanidade? Por que não refletirmos mais sobre em que tipo de pessoas queremos nos tornar?

Por sinal, discute-se se o Ser Humano possui ou não alguma liberdade. É uma questão recorrente da Psicologia e da Filosofia. Minha resposta, após trilhar meus próprios caminhos e descaminhos existenciais, e de revisar ampla bibliografia referente ao tema, é simplesmente esta: depende! Assim como há diferentes graus de temperatura corporal, existem diferentes graus de liberdade. Infelizmente, quando o tema é liberdade, muitos possuem pouca, poucos possuem muita. Mas penso que podemos virar esse jogo se caminharmos para a democratização do desenvolvimento espiritual.

Não Estamos Falando sobre Religião

O primeiro cuidado que tenho ao falar da Espiritualidade Pós-Moderna é deixar claro que não estou me referindo à Religião. E não é porque eu desconsidere o valor e a importância humana e social das Religiões, muito ao contrário. Interessam-me todos os assuntos referentes ao fenômeno humano, mas enquanto a Religião se estabelece sobre crenças e preferências particulares que devem ser respeitadas, entendo que a Espiritualidade Pós-Moderna é um fator de necessidade evolutiva de nossa espécie. Comparo o seu advento com a transformação cultural que se deu quando do surgimento da noção de Direitos Humanos, logo após a brutal conquista da América Espanhola. A partir do século XVI, a discussão sobre o assunto espalhou-se pelo mundo e o conceito evoluiu paulatinamente, através de gerações. No século XIX, os romancistas tiveram o papel de criadores de uma nova consciência global, fazendo com que seus leitores experimentassem forte empatia diante do sofrimento de alguns de seus personagens, sendo o exemplo de autor mais citado nesse sentido o escritor britânico Charles Dickens. Assim, chegamos aos dias de hoje formando consenso em torno da ideia de que todo ser humano possui certos direitos inalienáveis. O fato de que os direitos humanos ainda não são garantidos em toda parte não significa que não tenhamos conquistado a noção cultural de sua necessidade.

Quando digo Pós-Moderno, o que digo? 

  • Que as conquistas da modernidade, desde o Iluminismo e a Revolução Industrial – progresso material, tecnologia, liberdade de expressão, democracia – são muito importantes, mas não são ainda suficientes para gerar bem-estar subjetivo sustentável para as gerações atuais, cuja existência se torna cada vez mais complexa.
  • Por outro lado, experiências inovadoras que dizem respeito a modelos econômicos mais aderentes à natureza humana, formatos mais flexíveis nos ambientes de trabalho, formas descentralizadas da transmissão de saberes e, principalmente, uma  compreensão mais lúcida dos verdadeiros valores da existência, promovem por toda parte um conjunto de novas motivações como propósito, autonomia e excelência (vide o livro Motivação 3.0, de Daniel Pink), indicando que estamos em busca de uma adaptação cultural, um movimento evolutivo que inclui sofrimento e incertezas, mas também muitas descobertas fascinantes e esperanças.

Quando digo Espiritualidade, o que digo?

  • Digo que todos temos o potencial para “abrir” nossas consciências, de nível em nível, até compreendermos a conexão de tudo com tudo, como nos ensinava, nos anos de sua maturidade, o cientista Albert Einstein:

Somos parte de um todo que chamamos de universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Percebemos a nós mesmos, nossos pensamentos e sentimentos como algo separado do resto. Essa ilusão de ótica da consciência humana é uma espécie de prisão, que nos mantém restritos aos nossos desejos e afeições pessoais. Nossa tarefa é nos libertar dessa prisão, aumentando a amplitude de nossa compaixão, para abarcar todas as criaturas vivas e a beleza do universo. ”

  • Essa abertura da consciência, mencionada pelo famoso físico, nos protege de um dos maiores perigos da jornada de desenvolvimento que é a aceitação de uma existência medíocre, baseada apenas em autopreservação. Em sua autobiografia, intitulada Memórias, Sonhos e Reflexões, Carl Jung explica:

A questão decisiva para o Ser Humano é esta: ele está ou não está vinculado a algo Infinito? Essa é a questão que definirá a qualidade de sua vida. Somente quando compreendemos que aquilo que realmente importa é o Infinito, podemos evitar fixar nossos interesses em futilidades, e em objetivos que não possuem real importância”.

  • Esta abertura da consciência ajuda-nos a criar uma nova equação no quesito da sustentação econômica, porque as fontes de sustentação procuram e encontram naturalmente uma pessoa em harmonia consigo mesma, com os outros e com a natureza. Há um paradoxo profundo neste ponto: o medo do futuro gera o pior tipo de bloqueio na afluência de recursos. Quando a serenidade é conquistada em níveis conscientes e inconscientes, tudo flui: as forças e os talentos encontram a sua utilidade no mundo, e o mundo retribui com os meios para que essas forças e talentos continuem a contribuir.
  • Essa abertura da consciência nos faz também, nas palavras de Francesc Torralba, “mais abertos e permeáveis capazes de conectarmo-nos profundamente com os outros”; ela nos ajuda, por essa razão, a suspender todo tipo de julgamento sobre o caráter alheio o que, por sua vez, nos torna capazes de perdoar mais, fazendo com que nossos relacionamentos sejam mais harmoniosos.
  • Essa abertura de consciência faz o indivíduo perceber que sua realização só começa quando ele utiliza o melhor de seus talentos e de suas forças para servir à sociedade.
  • Ao abrir as portas da percepção para dimensões transcendentes, ela promove uma nova forma de experimentarmos as tristezas e as alegrias, com crescente resiliência.
  • O envelhecimento é experimentado como uma experiência de compensação, pois na mesma medida em que, com o passar dos anos, a energia decresce e a matéria se desgasta, a consciência da pessoa que cultiva a espiritualidade pós-moderna vai se enriquecendo e se aprofundando, alcançando a Sabedoria, ou seja: a conquista daqueles aspectos mais sublimes e sensíveis de humanidade que, nos seres humanos menos maduros, permanecem aprisionados na forma de mero potencial.

Chegamos a um ponto dramático da evolução de nossa espécie. Não podemos mais nos conformar com a inconsequência, a indiferença e a insensibilidade. Na complexidade em que vivemos hoje, nossos destinos estão entrelaçados, pessoalmente, culturalmente, socialmente. A energia humana é muito grande, e se ela não for usada de um jeito será usada de outro.  O egocentrismo e o etnocentrismo têm um forte poder de autodestruição civilizatório. Assim sendo, embora não conheça melhor regime do que a democracia, preciso dizer que estou convencido de que a democracia sem a maturidade é quase tão devastadora quanto os regimes totalitários. Nossa única saída é investir de verdade em um movimento de renascimento espiritual, um movimento muito diferente de todos os que já vivemos no passado, um movimento de Espiritualidade Pós-Moderna.

No quadro abaixo, procuro mostrar a distinção entre a Religião (objetivos, estrutura, práticas e escopo) e a Espiritualidade Pós-Moderna. Entre ambos cito um exemplo intermediário.

Religião Tradicional
Exemplo – Catolicismo
Exemplo Intermediário – Budismo Espiritualidade Pós-Moderna – tendência da evolução cultural
Objetivo prioritário: união com Deus e salvação da alma. Objetivo prioritário:   extinguir o sofrimento humano. Objetivo prioritário: Desenvolvimento Integral do Potencial Humano que se traduza em profunda experiência subjetiva de amor incondicional e liberdade.
Estrutura: Instituição hierarquizada, com sede, templos, sacerdotes, corpo doutrinário, escrituras etc.> Estrutura: Instituição hierarquizada, com sede, templos etc.

 

Estrutura: nenhuma. É apenas uma forma de pensar e de agir que diz respeito a certos princípios de bem viver, confirmados pela Ciência e pelo bom senso.
Práticas: oração, ritos, sacramentos, procissões, aconselhamento, atividades sociais caritativas, celebração de datas especiais. Práticas – o Caminho Óctuplo: Práticas: exercícios de autoconhecimento, descoberta de propósitos existenciais, foco na capacidade de realizar contribuições valorosas à sociedade, desenvolvimento de habilidades que melhoram os relacionamentos, exercícios de mente plena e meditação.
Escopo: Trata de assuntos da existência, com vistas à vida após a morte. Escopo: Foco na existência, estendendo-se também ao problema da vida após a morte (reencarnação). Escopo: Foco exclusivo nas questões existenciais, considerando as experiências transcendentes como uma necessidade da existência.

 

Saiba mais sobre a Caminhos em www.caminhosvidaintegral.com.br

Luciano Meira
Cofundador da Caminhos Vida Integral e Diretor de Metodologia do IPOG

1 Comentário

  1. Juliana Linares

    Parabéns Luciano! Que artigo delicioso de ler, principalmente , pelo fato de que eu me conecto profundamente com o tema. Eu gosto da sua definição de “espiritualidade – pós – moderna”. Ela por si só se distingue da definição de “religião”, tornando mais fácil para as pessoas céticas compreenderem o conceito. Estamos todos em busca de uma evolução da consciência e de uma conexão com algo maior. Cultivar a espiritualidade nos ajuda a entender que quando a matéria começa a de degradar, essa expansão de consciência e conexão com algo muito mais amplo irá nos ajudar a sentirmos seres mais livres, sábios e integrados.

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