22 maio 2017

Como Tornar Efetivos os Treinamentos Organizacionais

E porque para isso as organizações terão de se tornar Escolas de Florescimento do Potencial Humano

Passei mais de uma década trabalhando com a capacitação de líderes de organizações, principalmente líderes em diferentes níveis nas empresas. Ainda atuo nessa área, mas hoje estou mais seletivo sobre o modo pelo qual desejo (e principalmente o modo pelo qual não desejo) contribuir com as pessoas e a sua relação com o trabalho.

Em muitas ocasiões tive a sensação de ser um esforçado, bem-intencionado e bem ferramentado “enxugador de gelo”. Observei, na prática, que poucos programas de treinamento têm efetividade duradoura. Um número ainda menor é o daqueles sobre os quais se pode dizer que cumpriram a sua promessa de transformar os líderes, os colaboradores, suas práticas e seus hábitos. O que dizer então sobre a tentativa de reorientação de uma cultura inteira? Nesse último caso já estamos diante de uma espécie de santo graal que algumas consultorias e líderes perseguem vigorosamente sem jamais alcançar inteiramente. E quando conseguem algum bom resultado, graças a um conjunto de fatores favoráveis (geralmente gestores excepcionais estão envolvidos), é quase certo que esse resultado lhes fugirá das mãos, afugentado pela rapidez e pela brutalidade com que os interesses econômicos imediatistas subjacentes atropelam tanto as melhores iniciativas das diretorias de Recursos Humanos quanto os mais bem elaborados programas das consultorias.

É possível escrever livros para explicar melhor a raiz da inconsistência dessas iniciativas, mas arrisco-me a resumir o problema e apontar para os caminhos das soluções, neste breve artigo.

A raiz histórica e estrutural do problema

Enquanto as pessoas (consciente ou inconscientemente) sentirem-se usadas pelas organizações, nenhum treinamento será verdadeiramente eficaz. O filósofo Jürgen Habermas chama de “ação estratégica” a iniciativa de se manipular pessoas do mesmo modo como manipulamos outros aspectos de nosso ambiente para alcançar determinado fim. A experiência de transformação cultural, com a qual tanto sonham alguns líderes, será sempre afetada por uma premissa de desiquilíbrio que passo a apresentar.

A realidade humana é composta por duas dimensões inextrincáveis, a saber: a subjetiva e a objetiva. Usamos nossos sentidos e nossa razão para recolher fragmentos do mundo. Estou aqui, trabalhando no meu computador. Este é o mundo dos fatos observáveis. Os objetos, as ferramentas, a sala decorada, meu corpo, meu cérebro e mesmo os meus comportamentos podem ser acessados pela sociedade em geral, pois esse é o conjunto aproximado dos fatores objetivos, mensuráveis. Contudo, a dimensão subjetiva opera simultaneamente, sempre afetada pelos fatores objetivos, em um todo indissociável. Estou otimista ou pessimista? Sinto-me tranquilo ou estou sob alguma ameaça? Estou apegado ou desapegado às condições atuais de minha existência? Quais os meus desejos? Quais as minhas expectativas e esperanças? O ódio me invade agora ou é o perdão que ocupa meus sentimentos? Que sentido encontro no trabalho que estou fazendo hoje? Que sentido enxergo em relação à própria vida? Ora, sabemos que esses fatores subjetivos impactam o nosso nível de motivação e de engajamento no trabalho. Sabemos também que eles são a chave que pode possibilitar ou dificultar as relações de confiança que são o coração de uma cultura vigorosa, de uma convivência saudável, de uma produtividade sustentável.

Antes de reclamarmos da baixa efetividade de treinamento e consultoria, deveríamos ser capazes de analisar a infraestrutura socioeconômica sobre a qual as nossas organizações estão assentadas, e que podemos chamar aqui por razões simplificadoras de Sistema. O Sistema foi construído desde a antiguidade com ênfase exagerada na dimensão objetiva. Isso não aconteceu por acaso. Nos primórdios da cultura humana, que se estendem entre 60.000 a 500 anos antes de Cristo, as necessidades materiais, básicas, higiênicas, portanto objetivas, tinham um apelo brutal sobre o nosso modo de entender os valores da vida. Foi o medo da fome, da enfermidade, da agressão, do desconhecido, da natureza hostil que orientou a transição entre um sistema primário de trocas simples (escambo) para um sistema monetário que se sofisticou ao longo dos séculos. O dinheiro tornou-se o símbolo mais forte e a linguagem mais universal entre nós, e a própria ideia de felicidade foi se confundindo com o poder econômico. O Sistema foi construído sobre a base de temores primitivos. Não seria um exagero dizer que nossas sociedades nasceram e cresceram numa postura defensiva, armada, egocêntrica (cada um por si) e etnocêntrica (privilégios para o meu grupo, meus familiares, meus amigos, os membros da minha igreja ou da minha agremiação esportiva). Muito embora a embalagem do Sistema tenha se modernizado nos últimos 250 anos, as motivações primitivas ainda estão lá, no subsolo da nossa refinada civilização. É nesse contexto maior que a Razão Instrumental aparece nas organizações. Todos nós aceitamos, sem questionar, que as organizações só podem ser desenvolvidas para realizar objetivos. Ainda não somos capazes de nos perguntar se seria possível alterar esse modelo mental.

O exagero da objetividade criou, principalmente nos últimos 250 anos, desde a Revolução Industrial, um desiquilíbrio evidente: o fortalecimento da subjetividade, por falta de foco e suporte, não acompanhou a evolução da objetividade. Temos hoje sujeitos fragilizados em muitos sentidos, lidando com objetos poderosos (tecnologia, meios de comunicação, poder produtivo, burocracia estatal, poder bélico etc), a tal ponto que as conquistas materiais e sociais objetivas estão agora “queimando” nas mãos de sociedades psicologicamente e espiritualmente imaturas. O pensador político francês Alex de Tocqueville, considerado um importante sociólogo da democracia moderna, já na primeira metade do século XIX preocupava-se com as tendências massificadoras da civilidade urbana, que apenas se intensificaram desde então. Escreveu Tocqueville que “quanto mais iguais se tornam as condições do homem, e menos fortes são os homens individualmente, com mais facilidade eles cedem à corrente da multidão, e mais difícil é para eles aderir por si mesmos a uma opinião que a multidão descarta”. Tanto Tocqueville quanto o seu compatriota Emile Durkheim, um dos pais da sociologia moderna, anteviram a tendência que se adensou no século XX: massas anônimas e não estruturadas, por vezes inertes e passivas, por vezes perigosamente ativas a serviço de elites demagógicas manipuladoras.

O filósofo espanhol José Ortega Y Gasset chamava essa explosão de superficialidade que agora toma de assalto a sociedade pós-moderna de “A Rebelião das Massas”, sabendo ver nela o que ela tinha de mais promissor e de mais aterrorizante:

“A rebelião das massas pode, de fato, ser o caminho para uma nova organização da humanidade, única, mas também pode ser uma catástrofe do destino humano. Não há razão para negar a realidade do progresso; mas é preciso corrigir a noção de que esse progresso seja seguro. É mais congruente com os fatos pensar que não há nenhum progresso seguro, nenhuma evolução sem a ameaça de involução e retrocesso. Tudo, tudo é possível na história – tanto o progresso triunfal e indefinido quando a regressão periódica. Porque a vida, individual e coletiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do universo cuja substância é o perigo. Compõe-se de peripécias. É rigorosamente falando, drama”.

Penso nessa rebelião como irrevogável e bendita, porém os danos provocados por ela serão cada vez maiores que os seus benefícios, a não ser que sejamos capazes de buscar um reequilíbrio  por meio do  fortalecimento da subjetividade (maturidade dos sujeitos). Precisamos fortalecer um movimento que gosto de chamar de Espiritualidade Pós-Moderna, movimento este que gostaria de ter a oportunidade de explicar para aqueles que estiveram interessados até agora neste artigo.

O que é a Espiritualidade Pós-Moderna.

Vale dizer primeiramente o que ela não é. A Espiritualidade Pós-Moderna não é a defesa de uma determinada doutrina religiosa específica do passado ou do presente, por mais respeitável que seja, ou de práticas da chamada Nova Era.

O que ela é então? Há muito o que dizer a seu respeito, mas se fosse obrigado a sintetizar a sua essência em poucas linhas, tentaria fazê-lo em três partes:

1 – A Espiritualidade Pós-Moderna começa no fortalecimento da consciência individual perante as pressões ambientais que a sociedade oferece ao sujeito desde o seu nascimento, de forma que o indivíduo não dissipe seus potenciais abundantes falsificando-se para se adaptar e se acomodar aos restritores modelos sociais dominantes.

Ninguém melhor do que o poeta Fernando Pessoa, habilíssimo com as palavras, para explicar o sofrimento humano que acompanha esse fenômeno:

“Eu sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que o desejo dos outros fizeram de mim”.

A maioria de nós carrega frustrações conscientes e inconscientes por não ter vivido até aqui  “a vida que poderia ter sido e não foi”, como nos versos de outro vate, Manuel Bandeira.

2 – A Espiritualidade Pós-Moderna prossegue por um processo de autoconhecimento pessoal, que inclui o desenvolvimento das forças de caráter, inteligências, sensibilidade, capacidade de fazer escolhas livres e consequentes, e de autoconhecimento transpessoal, que inclui aprender a acessar os aspectos do Eu que vão além da racionalidade e da própria linguagem: a experiência do silêncio interior, que pode ser induzida com a ajuda de técnicas de meditação.

3 – A Espiritualidade Pós-Moderna culmina com a transição das necessidades, dos desejos e das afeições pessoais para um nível de autodoação: agora o indivíduo que muito recebeu e muito  se fortaleceu passa a ter como sua principal aspiração o doar-se para a sociedade, para o bem-estar e o desenvolvimento dos outros. Ele não está mais no mundo para tirar para si, mas para contribuir, para viver e cumprir honrosamente um propósito envolvente, um compromisso incondicional.

Ninguém paga um preço maior pela superficialidade do que o indivíduo que se deixa boiar na superfície da existência. Esse preço é o da não-realização íntima, espiritual.

A Espiritualidade Pós-Moderna, que, a meu ver, é um movimento necessário para reequilibrar nossos caminhos de evolução, se baseia na autoridade de algumas Ciências Humanas, especialmente a Psicologia do Desenvolvimento e o seu mais recente ramo chamado de Psicologia Positiva, além de algum suporte que poderá ser colhido na Neurociência e em alguns estudos de Evolução Cultural e Social que apareceram nas últimas décadas, a exemplo da Dinâmica da Espiral.

A Psicologia do Desenvolvimento ajuda-nos a enxergar que existem dois processos sem os quais  a existência humana será sempre uma equação incompleta. Em “Gestão Qualificada – a conexão entre felicidade e negócio”, o icônico psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi explica esse desafio da nossa subjetividade individual:

“A realização plena das potencialidades de um indivíduo, que normalmente gera a felicidade, depende da confluência de dois processos. Torna-se bem mais fácil conseguir a felicidade quando a pessoa entende de que maneira eles funcionam. O primeiro é o processo da diferen- ciação, o qual exige a consciência de que cada pessoa é diferente das demais, responsável pela subsistência e bem-estar próprios, disposta a desenvolver esse caráter único seja qual for o rumo que ele tomar, e desfrutando da expressão do nosso existir em ação. O segundo processo é o da integração, em que se aceita o fato de que por mais diferentes que sejamos, estamos totalmente envolvidos em redes de relacionamentos com outros seres humanos, com símbolos e artefatos culturais, e com o ambiente natural circundante. Uma pessoa plenamente diferenciada e integrada torna-se uma individualidade complexa – alguém que tem as melhores possibilidades de levar uma existência feliz, vital e significativa”.

Falemos um pouco mais sobre cada um desses dois vértices da Plenitude que já apresentamos em outros artigos em forma de gráfico (abaixo):

O processo de diferenciação requer do indivíduo que ele seja capaz de conhecer-se profundamente, encontrar suas forças de caráter e suas inteligências, e colocar, por vontade própria, todo o seu potencial singular a serviço da sociedade, por meio de trabalho digno e criativo, sem perder a liberdade de pensamento e o senso crítico. A pessoa precisa se reconhecer nas contribuições originais de seu trabalho, um trabalho realizado como mero emprego, algo menos do que uma missão ou um propósito de vida não gera essa experiência de singularidade pessoal.

Gosto de chamar esse eixo da diferenciação de eixo da Liberdade, porque somos escravos dos aspectos ainda não desenvolvidos do Eu. Carl Jung chamava essas falhas de desenvolvimento do potencial de “sombras”. Sou prisioneiro das sombras porque ainda não paguei  o preço do desenvolvimento das minhas forças, dos meus potenciais. Talvez ainda não tenha tido a coragem para romper com os grilhões que me impedem de crescer, ou não tenha tido a paciência e a disciplina de praticar, praticar, praticar as habilidades e os talentos que me levarão a me sentir como a melhor versão de mim mesmo. Quando transformo a potência em ato, a sombra se desfaz: é meio-dia!

No processo de autoconhecimento, o indivíduo precisa vasculhar o próprio caráter, defrontar-se com as forças e as fraquezas que o compõe; abrir-se vulneravelmente para si mesmo e para os outros.

Segundo o estudo minucioso de Seligman e Peterson, publicado em 2005, existem seis virtudes universais do caráter. São universais porque todas as culturas, em todos os tempos, consideraram-nas traços positivos do Ser, os quais estão diretamente implicados com experiências de bem-estar subjetivo e podem ser desenvolvidas a qualquer momento. Essas seis virtudes e as forças específicas e concretas que as constituem encontram-se na lista a seguir:

Sabedoria: criatividade, curiosidade, senso crítico, amor ao aprendizado, perspectiva.

Coragem: bravura, perseverança, integridade, entusiasmo.

Humanidade: amorosidade, generosidade, empatia.

Justiça: espírito de equipe, imparcialidade, liderança.

Temperança: perdão, humildade, prudência, autocontrole.

Transcendência: apreciação da beleza, gratidão, esperança, bom-humor, espiritualidade.

No eixo da integração, complementar ao da diferenciação, nosso esforço deve ser o de nos abrir para os encontros do coração. Pesquisas realizadas ao longo de décadas na Universdade de Harvard, demonstraram que relacionamentos de qualidade estão no centro de uma vida feliz. Pesquisas com moribundos, demonstraram que, nos momentos finais da existência, um único tipo de preocupação resta àquele que repousa em seu leito de morte e com a respiração ofegante: os relacionamentos, bem ou mal resolvidos.

Chamo o processo de integração simplesmente de Amor. Assim, Amor (integração) e Liberdade (diferenciação) formam os dois caminhos principais do desenvolvimento subjetivo, e não podemos negligenciar um ou outro sem receber as consequências da frustração e da angústia, que chegarão em algum ponto de nossa existência, quando não estivermos tão distraídos pelas amenidades anestésicas que inventamos para fugir das questões mais relevantes da vida.

Os Avanços da Psicologia Positiva

A Psicologia Positiva contribui ainda mais com o projeto do equilíbrio Sujeito-Objeto ao propor em linhas muito gerais que:

  • Todo Ser Humano tem muitos potenciais a serem desenvolvidos.
  • Existem práticas simples, mas que requerem disciplina, que podem ajudar o indivíduo a desenvolver os seus potenciais até um ponto de virada, chamado de Florescimento (inverso do Murchamento).
  • O Florescimento está para o desenvolvimento do Potencial Humano como a fervura está para a água aquecida pelo fogo. Quando se atinge uma certa altitude de desenvolvimento, o Bem-Estar Subjetivo se torna sustentável, penetrando – como se fosse um vapor – todas as dimensões e papéis sociais da vida do indivíduo.

Os fatores críticos de Florescimento do Potencial já pesquisados e codificados pelos Psicólogos são cinco:

  • Vida Significativa – a capacidade de atribuir sentido consciente, a cada passo da jornada humana, e de eleger para si um compromisso em torno de uma causa inspiradora.
  • Vida de Realizações – manter-se firme e focado, mesmo diante de gigantescos obstáculos, numa postura que o sociólogo Max Weber chamaria de Ética da Convicção (tentar realizar seu projeto essencial de vida, mesmo diante da possibilidade do fracasso).
  • Vida Engajada – a escolha sábia de atividades que mobilizem seus melhores potenciais, equilibrando o nível de habilidades e o tamanho dos desafios, de modo que seja muito comum no cotidiano do indivíduo a condição de ele entrar em estado de fluxo (FLOW).
  • Vida de Relacionamentos – o desenvolvimento sincero do potencial empático. Aprender a ouvir e compreender o ponto de vista do outro, a enxergar seus pontos fortes, suas qualidades, mesmo quando se opõe à nossa forma condicionada de pensar.
  • Vida Aprazível – cultivar as emoções positivas a exemplo da esperança, da alegria, da admiração e, principalmente, da gratidão, para que os nossos dias sejam mais agradáveis na jornada de desenvolvimento do Ser.

No livro do aluno da Oficina Plenitude, que elaborei contando com a contribuição do Psicólogo Helder Kamei, Presidente da Associação Latino Americana de Psicologia Positiva, apresento oito indicadores de Florescimento que servem para que os alunos se autoavaliem, dando-se notas que vão de 1 a 5, de acordo com como se sentem em cada área. Penso que a leitura desses indicadores possa ser bastante útil para se compreender o que se espera em termos de desdobramento do desenvolvimento humano no seu aspecto mais subjetivo. Enfatizo o último indicador, a Transcendência, que tem sido apontado pelos nossos alunos como o mais difícil de se conquistar entre os demais.

Indicadores de Florescimento

Autenticidade: orientação moral e senso de justiça que nascem da clareza da própria consciência, pela conexão com princípios universais que vão muito além dos códigos sociais convencionados.

Resignificação: idealismo e realismo reconciliados. Nossos melhores talentos a serviço de causas e projetos concretos, essenciais, repletos de sentido para nós, com alta produtividade e desejo de contínuo aperfeiçoamento.

Essencialismo: coragem para reduzir os projetos de vida ao estritamente essencial, aprendendo a evitar a sobrecarga gerada pelos receios conscientes e inconscientes do ego.

Engajamento: capacidade de desfrutar de prazer intrínseco na realização de projetos e atividades que requerem e demandam o uso de nossos melhores talentos. Fim do senso de heroísmo – realizar porque é bom realizar. Aumento da resiliência em função da redução da dependência de fatores extrínsecos para a ação.

Multiperspectivismo: capacidade de compreender um mesmo fato ou evento por diversos pontos de vista dignos de valorização. Disposição para ajudar a integrar as diferenças pelo princípio da complementaridade. Capacidade de resolução de problemas complexos por meio do pensamento dialético e compreensão de paradoxos.

Empatia: humildade, desapego, flexibilidade, espírito colaborativo, vontade de entender e de acolher o outro. O desejo sincero de que o outro seja feliz.

Apreciação: o cultivo da gratidão, e a capacidade de apreciar a beleza e o mistério sutil das coisas simples que nos cercam, as ricas possibilidades de cada momento.

Transcendência: sentir-se conectado ao domínio mais íntimo do Eu, o domínio cuja realidade se estabelece para além do tempo e do espaço, ali onde tudo apenas É. Gerir e digerir todas as mudanças a partir da serenidade dessa consciência transcendente, que equivale às profundezas do oceano que não se abalam com a agitação das ondas que estouram na superfície.

 

Os líderes das organizações precisarão mudar o seu olhar sobre os temas humanos

Até agora, tem sido inevitável que as organizações trabalhem quase que o tempo inteiro para a realização de objetivos, usando, para alcança-los, todo tipo de recursos, inclusive os chamados Recursos Humanos. A terminologia é reveladora: os humanos, no contexto da cultura organizacional são no máximo bons recursos. Recursos são meios, não são fins. Sempre que tratarmos seres humanos como meios, eles devolverão à organização o mesmo tratamento, e verão no seu “emprego” pouco mais do que um meio de sobrevivência. É aí que voltamos para as motivações mais primitivas: o medo, o temor, o pavor da doença, do desemprego, da fome, da solidão, do desconhecido são motivações negativas. O medo leva-nos a fechar os olhos, a usar os braços como escudo, a retesar os músculos da face. Criamos pouco e produzimos menos quando agimos por medo. Movidos por ameaças ambientais, não conseguimos caminhar para além da mesquinhez. O Dr. Stephen Covey fazia a distinção entre o paradigma da escassez e o paradigma da abundância. A área executiva do cérebro, o neocortex, que é a estrutura cerebral responsável pelas melhores realizações conscientes do ser humano, de nossos gestos de grandeza, na ciência, na arte, na filosofia, no esporte, na liderança, não funciona bem sob ameaça, conforme já demonstraram os neurocientistas.

Não acredito que seja suficiente envernizar o ambiente de trabalho. Contratar psicólogos e treinar os líderes para trocar o feedback por feedforward não é suficiente. Melhorar o espaço físico da empresa e acrescentar atividades de recreação não é suficiente. Incrementar benefícios e permitir que os colaboradores trabalhem em casa alguns dias por semana não é suficiente. Contratar serviços caros de coaching para os líderes de diversos níveis não é suficiente. Tudo isso é muito bom. Assistimos hoje a um avanço significativo da humanização no ambiente de trabalho, o que aplaudo de pé, mas que tenho certeza: não é suficiente. Não basta colocar remendo novo em pano velho.

Se quisermos, realmente, que os programas de treinamento organizacional sejam efetivos, transformadores, teremos que dar alguns passos mais corajosos para resignificar as razões fundamentais pelas quais as organizações existem e pelas quais as pessoas trabalham.

Penso que a verdadeira virada humanizante só chegará (se é que um dia chegará) quando começarmos a pensar que todas as organizações precisam assumir perante a sociedade duas declarações: uma de propósito e outra de missão. A primeira seria o que podemos chamar de uma declaração geral, por ser igual para todas. E a segunda declaração poderá ser a missão específica, que distingue cada uma em sua esfera de atuação e no seu campo de especialidade.

Esse propósito primário e geral, afirma que todas as organizações, de todos os setores, precisam se tornar Escolas de Florescimento Integral do Potencial Humano.  Para que o termo fique mais econômico, mais facilmente pronunciável, podemos dizer apenas que um dia todas as organizações se tornarão Escolas de Florescimento, seja porque essa será a única forma de engendrar resultados superiores e sustentáveis, seja pela razão mais óbvia ainda de que não podem existir resultados mais importantes do que o próprio crescimento das pessoas.

No movimento da espiritualidade pós-moderna proponho que tanto o Capital quanto o Estado sejam colocados a serviço da maturação psicológica, do desenvolvimento moral, do desenvolvimento da sensibilidade, da maturidade emocional, do desenvolvimento cognitivo, do desenvolvimento afetivo e espiritual das pessoas. Parece utopia, mas é a única coisa certa a ser feita, e nós sabemos disso. Adiar esse movimento é uma opção, mas apenas enquanto não nos importarmos, nós de todas as classes sociais, nós de todas as idades, nós de todas as raízes culturais, nós de todos os pensamentos filosóficos ou preferências políticas, nós de todas as convicções religiosas ou irreligiosas, em viver uma vida que já é naturalmente curta e perigosa, de forma artificialmente pequena e mesquinha.

Para sairmos da idade da pedra das motivações, precisamos nos educar para viver por razões mais elevadas, mais elaboradas, mais sensíveis e mais racionais do que o medo. Estou convicto, contra todas as aparências, de que já estamos, neste conturbado início do século XXI, em condição de reivindicar para as novas gerações uma vida estruturada sobre o Amor e a Liberdade. A Plenitude nunca será alcançada, porque já dizia um filósofo que o finito em busca do infinito está sempre a uma distância infinita. Mas temos, ao menos, o direito de buscá-la.

 

Luciano Meira
Cofundador da Caminhos Vida Integral e Diretor de Metodologia do IPOG

1 Comentário

  1. Juliana

    Parabéns pelo artigo Luciano! Amplo e profundo, trazendo uma perspectiva que, mesmo antes deu conhecer o conceito, já parecia fazer todo o sentido pra mim!

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.