25 ago 2016

O Tigre-de-dente-de-sabre e a Educação do Futuro

Nos tempos da caça e da coleta, os jovens membros do bando precisavam aprender com os mais experientes as habilidades de sobrevivência em um ambiente hostil. Diante da ameaça de um aterrorizante Tigre-de-dente-de-sabre, lições de análise sintática (serei objeto direto ou indireto?) ou de Física Clássica (quantos metros por segundo é necessário correr até a árvore mais próxima?) de nada serviriam ao novo caçador. Os melhores alunos aprendiam rapidamente a identificar os sinais de que, em determinada região, o gigantesco mamífero estava à espreita. Essa sim era uma aula de geografia com valor de vida ou morte.

E assim é que a educação, para ser eficaz, precisa acompanhar as necessidades humanas, e as necessidades humanas se transformam com o tempo. É bem verdade que nos primeiros milênios da história, as mudanças na hierarquia das necessidades foram lentas. Nietzsche comparava esses tempos primordiais a um camelo, que geme, suporta mas permanece parado. Contudo a modernidade veio com a ferocidade de um leão que é muito mais ágil e começa a dizer não à pobreza, não à tirania, não às catástrofes, não à ignorância, não à corrupção. 

Se colocarmos a tortuosa linha evolutiva da história humana ao lado da famosa “Pirâmide de Maslow”, entenderemos que, as necessidades educacionais dos povos estão se tornando muito mais sofisticadas agora. Para o melhor entendimento da hipótese que lanço, gostaria de usar a hierarquia que o psicólogo humanista revisou antes de morrer, e que possui 8 e não apenas os 5 níveis da pirâmide ensinada nos cursos de graduação.

De baixo para cima, a pirâmide possui 4 níveis de “Necessidades por Deficiência”, que são: fisiológicas, segurança, pertencimento e estima, e mais 4 níveis de “Necessidades de Crescimento”, que sobem nesta ordem: cognitivas, estéticas, de autorrealização e de transcendência. A dinâmica da pirâmide indica que à medida que vamos nos libertando do peso das necessidades por deficiência, sentimos maior disposição e interesse para resolver as necessidades de crescimento. Embora a realidade não seja tão linear quanto a teoria, as pesquisas mais recentes sobre o desenvolvimento cognitivo, conduzidas na Universidade de Harvard pelo renomado Dr. Howard Gardner, levaram a esta conclusão análoga: “a trajetória do desenvolvimento humano pode ser vista como o declínio contínuo do egocentrismo”.

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A maior parte dos modelos educacionais vigentes no mundo de hoje, inclusive no Ensino Superior, foi desenhada ao longo da Revolução Industrial, entre os finais do século XVIII até meados do século XX. Não havíamos ainda entrado na Era do Trabalhador do Conhecimento, ou a Era da Informação e da Tecnologia, que alguns autores situam a partir da década de 1960, tendo como marco simbólico a chegada do Homem à Lua.

Ora, esses modelos de educação legados pela Era Industrial, num ambiente de polarização política (esquerda x direita), podem ser classificados como instrumentais. Sua concepção teve como objetivo primário estimular e direcionar o indivíduo ao desenvolvimento de certas funções específicas que servem à grande máquina produtiva da sociedade, fosse ela capitalista ou comunista: aprender e especializar-se para servir ao sistema é a ideia que resume tais modelos.

Pouco espaço existe nesses modelos educacionais para se realizar o que chamaremos aqui de desenvolvimento integral do indivíduo. Carl Jung, um dos mais importantes pensadores do desenvolvimento humano, captura essa tendência opressora em sua obra icônica Tipos Psicológicos, publicada em 1921:

“A psique coletiva odeia, de certa forma, qualquer desenvolvimento individual que não sirva diretamente aos fins da coletividade. Ainda que a diferenciação de uma função seja o desenvolvimento de um valor individual, ela é tão determinada pelo ângulo visual do coletivo que reverte em prejuízo do próprio indivíduo”.

Jung veria hoje, se estivesse entre nós, que os ambientes organizacionais contemporâneos, por mais sofisticados, não são ainda desenhados para que o indivíduo possa ser ele mesmo para, a partir dessa originalidade, crescer no sentido de contribuir voluntariamente. As relações competitivas, egocêntricas por definição, fazem com que o trabalhador ainda no século XXI tenha de ter dois empregos: aquele para o qual foi contratado e um outro, no qual usa grande parte de sua energia, que é o de parecer ser aquilo que não é.

Enquanto o ser humano vive para aplacar as suas necessidades por deficiência (veja os 4 níveis inferiores da pirâmide), ele não tem escolha a não ser submeter-se a esse sistema, reagindo com sucesso ou fracasso a esse tipo de educação, vivendo toda ou quase toda a sua existência em função de motivações extrínsecas. É a imagem do coelho correndo atrás de cenouras suculentas ou do cavalo que se põe em movimento para evitar uma nova chibatada.

Mas a evolução da consciência é irrefreável; na passagem do mundo moderno ao pós-moderno, (nossa época de transição passou a ser conhecida por um termo negativo, que define apenas o que ela já não é) em função da própria tecnologia criada sobre as bases da revolução industrial, assiste-se de forma quase caótica, de tão acelerada, à satisfação das necessidades cognitivas de multidões.

No mundo inteiro, acelera-se o despertamento da consciência, o aumento vertiginoso de autonomia pessoal, o acesso à informação, as trocas culturais em rede, as experiências empáticas, e principalmente as aspirações de uma vida regida por propósitos e sentido.

Uma boa parte dos povos escala a pirâmide, alcança o quinto nível e já projeta suas escolhas sobre necessidades estéticas, de autorrealização e transcendência, coisa muito improvável e difícil de se obter dentro dos modelos sociais e econômicos que predominam no planeta. O sofrimento para dar à luz novas formas de existência humana muito mais vitais (corpo, mente, coração e espírito) do que as vigentes equivale a um parto cultural.

No chamado mundo corporativo vê-se, por exemplo, a crise de engajamento que as consultorias especializadas traduzem em percentuais próximos de 20%. A reação esboçada por algumas empresas de vanguarda tem sido ao estilo “dourar a pílula”, ou “redecorar a gaiola”, com novos pacotes de benefícios e liberalidades no escritório que podem ter algum efeito aliciador (a exemplo do que Pascal classificava de “distrações” para não ter de enfrentar o cerne do problema da existência), mas que não serão sustentáveis por muito tempo.

Arrisco-me a dizer que, nestes tempos de pós modernidade, ao menos 50% da humanidade já mergulhou na busca por aplacar as quatro necessidades superiores da pirâmide, já atravessou os portais das motivações meramente extrínsecas (as recompensas que vem de fora) para compreender o valor transcendental de mover-se por razões intrínsecas: as aspirações de desenvolvimento integral.

Os cientistas já acessaram esse fenômeno por meio de um novo ramo da Psicologia: a Psicologia Positiva. O laureado pesquisador Martin Seligman é o arauto agnóstico desse novo saber testado e retestado na Ciência do Bem-Estar. Sabe-se hoje que as pessoas que aprendem a ampliar as suas aspirações redesenhando para si vidas mais significativas, mais empáticas, nutrindo emoções positivas (como serenidade, gratidão, esperança e amor), e que preferem, a qualquer ganho exponencial, colocar seus talentos a serviço de atividades que se traduzem em experiências de fluxo (FLOW), essas pessoas alcançam um bem-estar psíquico muito acima da média. Amam a vida e se doam ao serviço da sociedade não por uma coerção do sistema inerte, mas por um ato voluntário, de prazerosa e dedicada entrega pessoal.

É um estágio de desenvolvimento que chamo de Plenitude, que concilia dois vetores do desenvolvimento que parecem opostos, mas que são na verdade complementares: o máximo de diferenciação com o máximo de integração. Poderíamos colocar esses vetores em uma matriz e teríamos 4 quadrantes:

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Como criar um modelo educacional que estimule o Ser Integral, tão diferenciado em seus talentos, inteligências e forças de caráter, quanto integrado no serviço de seus semelhantes por um sentimento de amor incondicional? Enquanto não conseguirmos desenvolver esse sistema (não basta para isso melhorar as práticas didáticas), sentiremos as dores de um ambiente disfuncional, desajustado para a realidade que rapidamente evolui.

O Tigre-de-dente-de-sabre que nos ameaça agora é muito mais complexo. Nossos alunos não poderão vencê-lo apenas evitando entrar nos seus temidos territórios. Sua ameaça é onipresente: ela começa em nosso próprio receio de avançar, de nos tornar tudo aquilo o que podemos nos tornar, começa em nossa hesitação de assumir nossa grandeza. Parece que nos contentamos com a posição de súditos hipnotizados por engenhosos brinquedos tecnológicos, quando podemos SER ilimitadamente mais. 

Parece-me que, nessa busca por novos modelos de Educação, um bom pontapé inicial foi dado por Jaques Dellors quando entregou seu relatório à UNESCO, na virada do Milênio, projetando a Educação do Século XXI sobre 4 pilares tão amplos quanto o Infinito: 

  1. Aprender a Ser
  2. Aprender a Fazer
  3. Aprender a Conviver
  4. Aprender a Aprender

Mas este já é um tema para desenvolvermos no nosso próximo artigo.

Luciano Alves Meira é Diretor de Metodologia do IPOG e sócio fundador da Caminhos Vida Integral

3 Comentáarios

  1. Silvia Ferreira

    Excelente texto. É impressionante como o meio e nós mesmos muitas vezes nos empurramos para o não florescimento, constituindo um retrocesso desastroso. Existem barreiras a serem transpostas: do comodismo, do egocentrismo e do medo.

  2. Cristina Ortiz

    Fantástica reflexão sobre a visão de futuro da educação, que precisa deixar de ser pensada de forma linear para enfrentar os desafios de um ambiente complexo, unica forma de elevar o seu patamar de atuação na vida das pessoas. Ansiosa pelo próximo artigo…

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