3 dez 2018

Por que ainda falamos tanto sobre a dificuldade em conciliar a carreira com a vida pessoal?

A maioria das pessoas não pagou ainda o preço para esclarecer a si mesmas, com profundidade, o que elas gostariam de vivenciar e realizar neste mundo. A falta de autoconhecimento é a pedra angular do desiquilíbrio.

Não se trata apenas de aprender algumas técnicas de gestão de tempo a fim de “equilibrar os papéis”. O problema é mais profundo. Fernando Pessoa traduziu em versos essa trágica angústia que atinge a todos nós: “Sou o intervalo entre o meu desejo e o que os desejos dos outros fizeram de mim”. Quem não se esforça para fortalecer seus próprios valores e objetivos existenciais está sempre à mercê dos interesses alheios. Quem é vítima dos caprichos de seu próprio ego é também vítima dos caprichos de egos alheios.

Durante a minha jornada, deixei de dar dicas convencionais, como aprender a criar uma pequena lista de prioridades no início de cada semana e distribuí-las pelos sete dias, para pessoas que ainda não acessaram seus principais potenciais humanos. Quando elas ainda não abraçaram seus anseios de diferenciação e integração, este tipo de dica se transforma em armadilha, já que o indivíduo tenderá a repetir padrões condicionados e condicionantes toda semana, caindo numa espécie de “sono” de acomodação, aprovado pela comunidade, já que, aos olhos dos outros, parecerá uma pessoa organizada e dedicada.

Temos de ir além, começando pela ideia de que nosso processo de desenvolvimento é muito dinâmico. No dizer de Erich Fromm: “O eu possível é sempre maior que o eu real, sendo assim, o homem está sempre buscando. O ser acabado é sempre projeto, um vir a ser.”

Alguém já disse que apenas os lobos caem em armadilhas para lobos. Só quando uma pessoa tem a coragem e a serenidade consciente de escolher alguns poucos valores e causas pelas quais deverá viver, torna-se capaz de se comunicar com clareza nos âmbitos pessoal, familiar e profissional. Sem essa clareza expressiva, a tentativa de conciliar o tempo entre vida pessoal e profissional é apenas um jogo de superfície que pode ser jogado com maior ou menor destreza, sem jamais atingir o cerne do problema das frustações existenciais. E pessoas frustradas sempre derramam amargura sobre as pessoas em sua volta, em casa e no trabalho, ferindo, inclusive, aqueles que dizem amar.

Já testemunhei – veja que ironia – pessoas que se esforçaram para ficar mais tempo com a família, mas cuja família não percebeu nessa mudança mecânica de sua agenda, qualquer ganho de valor. O valor não emana dos fatos ou do número de horas; ele emana das intenções, de nosso desprendimento espiritual.

É possível que as imagens artificialmente criadas de uma vida perfeita entre vida familiar e profissional estejam impedindo muita gente de viver a versão mais autêntica de si mesma, e de gerar suas melhores contribuições à sociedade.

Luciano Alves Meira – Caminhos Vida Integral

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