20 jun 2018

O Ser Humano em Busca de Si Mesmo

No mundo arcaico, o valor de um homem era indicado por sua coragem e sua força. A glória chegava juntamente com a vitória na guerra e o pior fantasma da existência era o da “covardia”.  Até que a Filosofia dos Gregos, o Budismo e o Cristianismo subverteram essa lógica.

Na antiguidade clássica, surgiu a noção de que o verdadeiro valor estaria na capacidade de desenvolver a razão e a virtude para submeter e disciplinar os próprios instintos desgovernados. A grandeza humana passou a se manifestar por meio da benevolência e da ilustração intelectual. Os fantasmas da existência passaram a se chamar ignorância e “pecado”.  Mas essa visão de mundo perdeu força com a chegada do Iluminismo, com a autoridade das Ciências experimentais, com o pensamento de Nietzsche e as propostas de Freud.

No mundo moderno, o valor foi deslocado para o poder econômico. Os ricos e “vitoriosos” passaram a ser invejados pelas pessoas comuns, presas ao peso do trabalho impessoal, enfadonho e mal remunerado. Os fantasmas da existência passaram a se chamar fracasso e pobreza. Mas também essa noção está ameaçada hoje pela fragilidade da economia globalizada, pelos horrores das guerras com potencial de extermínio da vida, pela destruição concreta dos recursos planetários, pelos duros ataques do pensamento Relativista e Desconstrutivista.

Eis que, então, no mundo pós-moderno, a própria noção de valor humano foi dissolvida nesse imbróglio. Quando tudo é considerado “igual”, quando qualquer modo de vida é aceito como legítimo e indiscutível, o fantasma que assombra a nossa geração é o da indiferença e do vazio. Afinal, “que cada um viva a sua vida como quiser, e ninguém tem nada a ver com isso…”

Ninguém denunciou melhor esse período negativo da história, profundamente anti-idealista, do que o poeta T.S.Elliot em “Os Homens Ocos”:

Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados

Uns nos outros amparados

O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,

São quietas e inexpressas

Como o vento na relva seca

Ou pés de ratos sobre cacos

Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor

Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram

De olhos retos, para o outro reino da morte

Nos recordam – se o fazem – não como violentas

Almas danadas, mas apenas

Como os homens ocos

Os homens empalhados.

Será que ainda podemos recuperar algum sentido geral para a existência, sem ter de retroceder?

Será que após o acúmulo de tanta estupidez coletiva, na forma de violência, imposição de “verdades” religiosas, de instrumentalização, de utilitarismo e indiferença, ainda podemos encontrar algum “caminho para casa”? Será que ainda será possível aprender a viver com encantamento, respeito, amor e liberdade?

Não enxergo solução que não passe pelo desenvolvimento de nossos potenciais individuais e coletivos. A diferença entre o que somos e o que podemos ser nunca foi tão relevante como agora.

Luciano Alves Meira – autor do livro “A Segunda Simplicidade”.

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