17 abr 2018

O CULTIVO DA ALMA

Nossa principal atribuição na condição de existentes é cultivar a própria alma, a fim de mantê-la saudável e livre do estresse e da superficialidade excessivos que caracterizam estes tempos líquidos. Sejamos jardineiros.

Alma é palavra latina – ânima – que significa literalmente o “sopro da vida”, mas pode ser igualmente compreendida como “essência”. Quem cultivar e nutrir a própria alma viverá. Quem não o fizer, ainda que respire, perderá, aos poucos, a vitalidade, o entusiasmo.

MATAR DE FOME AS EXPECTATIVAS

O cultivo da alma é um misterioso paradoxo. Em primeiro lugar, deve-se, temporariamente, matar de fome as expectativas pessoais. Por que? Para poder separar o Ser dos escombros projetados sobre ele ao longo da existência. É o tipo de limpeza que requer constância, um hábito como o de cortar as unhas que crescem de dia e de noite.

Chamo de “pessoa” a alma acrescida de desejos, expectativas, ressentimentos. Chamo de alma o Ser despojado da estrutura simbólica de passado e de futuro. A pessoa é o ser que deseja e teme. A alma é a consciência que contempla e ama sem se prender ao objeto do amor.

O que ganha o Ser ao se despojar assim? Resposta: uma força ilimitada. Como ensina Lao Tse: “quem cria silêncio interior e fica sem desejos torna-se invulnerável”.

Há quem acredite que um tal procedimento lançaria a alma à monotonia quando o que se dá é justamente o inverso: quanto mais despida de expectativas e lembranças, que são entes simbólicos do Ter, mais alto é o voo livre do Ser: reflexão, compreensão, sentimento, saber, capacidade de transformar. Quem nada quer, tudo pode: é aí que a aventura começa.

Poderemos reduzir a zero as nossas expectativas somente quando encontrarmos na meditação o ponto alto de cada dia, quando aprendermos a amar o transcendente, o intangível, o imaterial que a princípio se parece com um fole vazio ou uma luz sem forma, mas que, com o tempo e a prática, passa a nos oferecer a mais intensa sensação de Plenitude.

Quando a meditação transcendental se torna para alguém o ponto alto de seu dia, esse alguém pode abrir mão de suas expectativas em outras áreas. Aprende a apreciar o que é simples, sente-se seguro em sua pura interioridade. E não tendo dependências fortes fora de si, deixa para trás toda a vitimização. Pode se concentrar mais nas contribuições a fazer no mundo e menos em seus direitos e desejos pessoais. A sensação de perda inicial transforma-se em ganho inestimável. A identidade de “lagarta dentro de casulos” em que nos enfiamos por escolhas baseadas em temores e comparações, cede à beleza do voo livre da autenticidade.

OUTRAS FORMAS DE CULTIVAR A ALMA

Cultivar a arte: a música, a poesia, a beleza em suas formas múltiplas também é cultivar a alma. A beleza existe como semente dentro de cada um de nós, mas só floresce quando cultivada. A arte derrete os sonhos pretensiosos, suaviza nossas mentes rígidas, reduz o medo e a ansiedade, estimula a expansão da consciência no presente.

Cultivar o amor como um verbo intransitivo e incondicional é cultivar a alma. E a forma mais concreta de amor é realizar um trabalho de qualidade sem nada esperar em troca. O que advir de bom pode e deve ser celebrado com intensidade, mas o trabalho em si já é uma celebração.

Sejamos jardineiros! Dentro de nós, as flores e os frutos nos aguardam.

Luciano Meira
Cofundador da Caminhos Vida Integral e Diretor de Metodologia do IPOG

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