14 jul 2017

A Segunda Simplicidade

Uma abordagem (r)evolucionária para o tema da Produtividade Pessoal

No último artigo, falei rapidamente sobre o Flow que, de acordo com o Psicólogo Helder Kamei, Mestre em Psicologia Positiva, é um estado de profunda concentração, em que a consciência está extraordinariamente bem organizada: pensamentos, intenções, sentimentos e todos os sentidos estão concentrados na mesma meta. Todos os elementos da experiência estão em harmonia.  É como atingir um tipo de êxtase na dimensão da atividade, enquanto se trabalha naquilo que se ama.

Nesta ocasião, tomando-se tal definição como ponto de partida, gostaria de explicar o que antevejo sobre o futuro do tema Produtividade Pessoal.

Com o estupendo progresso recente das ciências do desenvolvimento humano, a filosofia da produtividade será verticalmente afetada. Há algum tempo, ela já havia se descolado da ideia ingênua de apenas se “fazer mais”. Agora, precisaremos também relativizar dois pontos que se tornaram clássicos e não sobreviverão à evolução cultural em curso:

  1. A dicotomia “urgência – importância”.
  2. O objetivo bem-comportado de equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

O conceito de produtividade terá de ser diretamente atrelado ao de florescimento de potenciais, saindo do foco de “fazer melhor” (objetivos) para “ser melhor” (subjetivos). Fazer melhor a serviço de quais causas, de quais sistemas? Einstein demonstrou que compreendia muito bem o perigo dessa ideia acrítica de “Produtividade”, quando escreveu:  “Não basta ensinar ao homem uma especialidade. Porque se tornará assim uma máquina utilizável e não um ser humano pleno. É necessário que adquira um sentimento, um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido, daquilo que é belo, do que é moralmente correto”.

Por isso mesmo, a busca de equilíbrio entre papéis (que já não é mais viável nos grandes centros urbanos) será substituída pela capacidade de se definir um centro gravitacional para a existência na forma de um propósito incondicional, ou missão.

O desenvolvimento humano, da forma como eu o compreendo atualmente, não aponta para uma vida equilibrada, mas sim para uma vida intensa e integrada, povoada por experiências que desafiem, até o limite, nossas capacidades e talentos potenciais. Basta pensar nas pessoas que realizaram profundos impactos na história como Shakespeare, Gandhi, Martin Luther King, Marie Curie, Einstein, Chaplin, Santos Dummont, Nietzsche, Dostóievski, Carl Jung para deduzir que suas existências não foram exemplos de equilíbrio, mas de intensidade.

Em vez de criar um paralelismo entre diferentes papéis sociais, em que todos têm pesos semelhantes e objetivos específicos, a nova concepção precisa ser “desiquilibrada” no sentido de privilegiar a noção de propósito de vida, que chamo de compromisso incondicional único. Essa causa central, profundamente identificada com quem somos, com nossas forças e talentos, deve se tornar o Sol de nossa vida, e os papéis sociais devem acomodar-se naturalmente em torno desse sol, como se fossem planetas, gerando vida em nosso cotidiano.

Outro ponto crítico da nova Filosofia, é que será necessário considerar a qualidade da consciência envolvida na ação, pois o que se realiza em diferentes níveis de “visão de mundo” – egocêntrico, etnocêntrico, pluralista e mundicêntrico – transforma a realidade de modo muito distinto. Um único gesto genial feito na perspectiva mundicêntrica tem o poder de integrar e criar inovação muito além de vultosas quantias de ações de qualidade egocêntrica ou etnocêntrica.

Na verdade, não precisamos mais aumentar nossa produtividade, precisamos sim qualifica-la. Produzir mais de modo acrítico poderá se tornar a fórmula perfeita para acelerar o nosso réquiem (repouso eterno). O genial cientista Stephen Hawking tem alertado as lideranças mundiais a respeito dos perigos que rondam a vida em nosso planeta se continuarmos a pensar a produtividade da forma como fazemos atualmente.

Precisamos, sim, alterar completamente nossa noção do que significa produzir para levar a vida humana a um novo patamar de qualidade, reduzindo-se radicalmente as tendências ao conflito, à rivalidade e à autodestruição, dando início a uma era de nossa própria criação, a era da segunda simplicidade. O potencial para fazê-lo está em nós.

Veja-se a tese evolutiva dos três Is, que deduzi a partir de minhas leituras de autores tão diferentes quanto Henri Bergson e Antonio Damásio, e que reafirmo resumidamente a seguir. São estágios cumulativos ao longo da história evolutiva de nossa espécie:

Instinto – cognição para a sobrevivência ou simplicidade.

Inteligência – cognição para o progresso ou complexidade.

Intuição espiritual – cognição para a reintegração e reconciliação do ser humano consigo mesmo, com os outros, com a natureza. Esta é a segunda simplicidade.

A nova ciência da Produtividade Pessoal será então evolucionária (revolucionária também?). E já é hora de começar a educar as novas gerações a partir dessas premissas. Os novos saberes revelam que objetivos medíocres alimentam a mediocridade. Portanto, proponho aos meus colegas educadores que adotem objetivos bem mais ousados para reencantar a própria educação. Proponho este propósito: “Formar gênios amorosos e espiritualizados que consigam resignificar a existência pessoal e coletiva, estabelecendo a cultura da segunda simplicidade”.

Quem sabe, meu caro e inspirado Nando Reis, não seja esse o tão esperado e acolhedor Segundo Sol?!

 

Luciano Meira
Cofundador da Caminhos Vida Integral e Diretor de Metodologia do IPOG

6 Comentáarios

  1. Visão inspirada e realmente (r)evolucio ária. Lendo seis textos tenho a sensação /intuição de estar presenciando o nascimento de um movimento totalmente novo e iconoclasta na dinâmica social e do mercado. Fantástico.

  2. Visão inspirada e realmente (r)evolucio ária. Lendo seis textos tenho a sensação /intuição de estar presenciando o nascimento de um movimento totalmente novo e iconoclasta na dinâmica social e do mercado. Fantástico.

  3. Visão inspirada e realmente (r)evolucionária. Lendo seus textos tenho a sensação /intuição de estar presenciando o nascimento de um movimento totalmente novo e iconoclasta na dinâmica social e do mercado. Fantástico.

  4. Milton Sussumu Hara

    Querido Luciano, tudo bem? Tive o prazer de ouvi-lo na CBN. Entrei no site, e achei super bacana a essência do projeto. A tempos venho me interessando por assuntos humanistas, metafísicos e afins, sou autodidata nestes temas e também na meditação, através do qual tenho tido “insights” maravilhosos. Me defino como um pensador “fora da caixa” , estou tentando desenvolver algumas ideias de base tecnológica, que se derem certo me permitirão partir para o meu grande projeto, que tem como eixo central a eliminação do chamado VALOR INTANGÍVEL das coisas.
    O tal VALOR INTANGÍVEL é a meu ver o grande responsável pelo estado de coisas por que passa a pôs modernidade, culminando no enorme abismo social existente no mundo. Ações de impacto social sustentáveis, geração de emprego e renda, conscientização da alteridade e a percepção do simples como essencial são meus objetivos finais.
    Muito obrigado.

  5. Celso Colonna Cretella

    Estou sinceramente sensibilizado pelos conceitos exarados pelo Autor, apesar de meus 81 anos de idade. Estou redigindo sumários – em linguagem mais acessivel – ilustrada por alguns exemplos, e divulgando pela minha rede de dezenas de pessoas e isto tem o efeito multiplicador que (entendo) a tese do Dr. Luciano merece. Eu próprio construi minha vida baseada em conceitos como: formação técnica, dedicação intensa (volume e tempo de trabalho diário) , evolução profissional (meu CV atesta isto) e resultado econômico para mim ou meus contratantes.

  6. Celso Colonna Cretella

    COMPLETANDO MEU PARECER:
    Completei 81 anos neste 11.05.18 e, ao receber meus filhos e netos de meus 2 casamentos, experimentei sensações que explicam os pontos nos quais a tese do Dr. Luciano mais me atingiram. Concluindo: apesar dos 81 anos, consumo 15 horas por dia entre sair de casa e retornar à noite. Durante a conversa com filhos (profissionais de sucesso) e netos ( já em plena trilha identica ) será facil ao prof. Alves Meira imaginar os pontos nos quais sua tese me atingiu.

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